UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. iNSTITUTO DE PSICOLOGIA.

NÚCLEO DE NEUROCIÊNCIA E COMPORTAMENTO

 

 

 

 

 

Proposta do Conceito de Dinâmica Ontogenética Contextual aproximando o "Projeto" de Freud dos Impasses da Psicopatologia Contemporânea

candidata: lucia maria argollo maciel

 

 

Tese de Doutoramento

apresentada ao

Núcleo de Neurociência e Comportamento

Instituto de Psicologia-USP,

como parte dos requisitos para obtenção do título de doutor

 

 

 

orientador: Prof. Dr. José Roberto Castilho Piqueira

 

 

 

 

 

 

1998

 

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO 5

INTRODUÇÃO 8

CAPÍTULO 1 – FUNDAMENTOS TEÓRICOS 14

A visão localizacionista e a visão dinâmica do cérebro humano 14

A linguagem e a articulação das proposições 21

Complexidade mental: significado e proposição 23

A Ciência Cognitiva e os modelos simbólicos(IAS) e conexionistas(IAC) 29

IAS (inteligência artificial simbólica) 30

IAC(inteligência artificial conexionista) 31

Redes neurais e a não-superação do impasse da complexidade

semântica 33

O Projeto e o estado atual da pesquisa 35

Sintaxe dinâmica: teoria mecanicista/econômica do Projeto.

Semântica funcional: surgimento de macanismos psíquicos,

desejos, representações-meta, etc. 35

Complexidade: desenvolvimento geral 36

Auto-organização 38

Entropia termodinâmica 39

Informação: teoria geral 41

Sistemas dinâmicos não-lineares 43

CAPÍTULO2 – O "PROJETO" DE FREUD 45

A Obra 45

Esquema geral 47

Psicopatologia 56

Tentativa de apresentar os processos psíquicos normais 59

O rumo posterior da investigação freudiana(A segunda tópica) 60

CAPÍTULO 3 - 64

Discussão: a proposta de uma dinâmica ontogenética contextual 64

Limites para uma teoria do sujeito: o caso da psicofarmacologia 78

Teoria hermenêutica do sujeito: uma conciliação entre complexidade

física e significado 80

Quatro aspectos da mente 90

Complexidade física e significacional: tentativa de compatibilização

da sintaxe cerebral e da semântica mental através de um modelo de

memória 97

Binômios e dicotomias 99

Conclusão 112

bibliografia 117

 

 

 

 

 

 

 

 

RESUMO

O problema da relação cérebro/mente não encontra solução que satisfaça a todos. Mesmo os avanços nos modelos de funcionamento cérebro/mental desenvolvidos a partir do surgimento da superdisciplina Ciência Cognitiva, que reúne as Neurociências, a Lingüística e as Ciências Computacionais, ainda não forneceram os modelos explicativos definitivos. A utilização de teorias como a Termodinâmica de sistemas abertos e Criticalidade auto-organizada pode indicar caminhos promissores na compreensão dos fenômenos cérebro/mentais e no desenvolvimento de modelos capazes de solucionar o impasse da tradução da complexidade física – nível de sinal - em complexidade mental – nível semântico. Propomos uma abordagem dinâmica em contraposição a uma anatômica, com a existência de uma dinâmica ontogenética contextual, responsável pelo processamento mental rico em conteúdos individuais e significativos, representada pelo fato do sistema cérebro/mental ser auto-organizante. A distinção entre dois modos de memória atuando no sistema e a partição do funcionamento mental em quatro tipos distintos fundamentam a proposta da dinâmica ontogenética contextual.

 

 

 

 

 

ABSTRACT

The mind/brain problem hasn’t been solved yet. The last decades saw great advances in modeling the function of the mind/brain system, especially since the creation of the interdisciplinary field of Cognitive Science that puts together the Neurosciences, Linguistics and the Sciences of computation. But this effort hasn’t been able to solve the main problems in building explicative models. The Thermodynamics of open systems and Self-organized criticality may indicate interesting ways of dealing with the difficult traductibility between physical complexity – the signal level – and mental complexity – the semantic level. We propose a specific dynamics, the contextual ontogenetic dynamics, responsible for the richness of mental processing dealing with individual significant events that is represented by the self-organizing characteristic of the mind/brain system. The distinction between two forms of processing memory in the system and the existence of four types of mental functioning support the idea of that specific dynamics.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Apresentação

 

Passados cem anos do "Projeto de uma Psicopatologia Científica" de Sigmund Freud, sua atualidade ainda é notável.

Primeiramente, chama a atenção o fato de que Freud trilhou no Projeto caminho semelhante ao que faríamos, em outra dimensão, cem anos depois, com as tentativas de tipo redes neurais artificiais, de encontrar um denominador comum para processamento cerebral e surgimento de categorias mentais.

Em segundo lugar, Freud abandona o Projeto por se defrontar, na nossa opinião, com a impossibilidade de tradução radical de entidades mentais em variedades físicas, o que o leva a adotar modelos lingüísticos, compatíveis, também, modernamente com a chamada dissociação cérebro/hardware x mente/software. Ao contrário de abandono de uma visão científica, a guinada de Freud pós-Projeto pode ser encarada como uma alternativa cientificamente possível diante de hierarquias e níveis de descrição que não se interpenetram.

A terceira e última consideração acerca da atualidade do estudo do Projeto diz respeito à Psiquiatria atual e aos limites de uma Psicopatologia de base cerebral. A Ciência Cognitiva nos fornece o pano de fundo para que, através do exame de sistemas complexos com ferramentas da termodinâmica, criticalidade com auto-organização e sistemas dinâmicos, possamos, como Freud, revisitar as teorias e modelos físicos e matemáticos que se nos apresentam para o entendimento da questão. Mais ainda, como o Freud de cem anos atrás, deveremos, graças ao avanço da Psicofarmacologia, ter um modelo empírico para particionar dois modos mentais anômalos – o cerebral e o mental. O primeiro requererá tratamento com fármacos, o segundo, com a velha hermenêutica do significado oculto. Ambas as patologias, no entanto, e isso procuraremos provar ao longo do trabalho, se baseiam numa concepção dinâmica de sistema cerebral. A patologia cerebral, tratável com fármacos, é dinâmica porque sua correção envolve mudança de valor de parâmetros no nível da junção sináptica. A patologia mental, tratável com a interação hermenêutica, é dinâmica porque espelha a complexidade de aproximação de um atrator cerebral responsável pela formação do significado, o que nos obriga a usar a linguagem pela incapacidade, de princípio, de substituirmos variáveis e parâmetros cerebrais por seus correlatos lingüístico-mentais.

O Projeto é atual porque a Psicopatologia contemporânea deverá entender que tanto distúrbios tratáveis com fármacos, quanto aqueles tratáveis com psicoterapia, são resultado de sistemas com sensibilidade às condições iniciais, não-linearidades e possibilidade de alteração qualitativo-topológica diante de mínimas perturbações em valores de parâmetros. O Freud do Projeto intui a complexidade da interação cérebro-mente. Cem anos após, a complexidade cerebral gera desvio e o corrigimos, quer com alterações de ganho de malha nos circuitos neuronais envolvidos, quer com a reconstrução das trajetórias responsáveis pela formação de atratores de significado. A mente é, sobretudo, o resultado da complexidade cerebral. Estudá-la envolve, portanto, o uso das categorias de sistemas complexos, não-lineares e sujeitos a comportamentos topologicamente distintos diante de variações quantitativas no espaço de parâmetros.

A variação qualitativa no espaço de soluções para uma determinada variação quantitativa no espaço de parâmetros é o que pode resumir um sistema dinâmico com valores de bifurcação. Essa mesma noção inspirou o Projeto de Freud – variação de quantidades e mudança dramática de processamento – e inspira igualmente a intervenção farmacológica nos distúrbios mentais – variação quantitativa no nível da junção sináptica e alteração qualitativa notável no plano mental-consciente-comportamental.

Dessa conjunção é que surge a tríade – Projeto, Sistemas Dinâmicos Complexos e Psicopatologia (inclusive a intervenção medicamentosa) – amparando a análise de modelos de mente e de possíveis desenvolvimentos futuros da Psiquiatria. A partir daí proporemos o surgimento de uma forma especial de processamento neuronal – a dinâmica ontogenética contextual – responsável pelas variáveis de história individual, das experiências afetivas com significado simbólico e da cultura.

INTRODUÇÃO


A articulação entre cérebro e mente, suas relações e possibilidade de estudo têm, desde os gregos, intrigado diferentes correntes do pensamento filosófico e da ciência. A tradição dualista (1) é especialmente representada na Filosofia Moderna por Descartes, que imputava atributos mentais a substâncias espirituais. Estas seriam, em termos lógicos, autônomas e totalmente independentes de qualquer aspecto do mundo físico. Tais substâncias habitariam determinados corpos físicos (caso da glândula pineal). Em situações especiais, como a fome e a sede, tais substâncias que compõem a mente estariam "unidas" ao corpo físico numa forma de interacionismo em que se podem reconhecer conexões de causalidade. A essência do mental é ser algo que pensa, e a do físico é ter extensão no espaço.

Ainda na tradição dualista, Hobbes advogava um dualismo de predicados, mas com referência única ao corpo humano. O mental e o físico seriam diferentes manifestações da mesma substância material. Na visão dualista podemos ainda destacar: o paralelismo psicofísico, em que a sincronização observada entre fenômenos físicos e mentais seria o resultado de uma "harmonia universal" entre as duas séries de eventos, sem qualquer interação entre eles; o epifenomenalismo, que trata o mental como um produto ou "sintoma" da atividade física. O mental seria totalmente dependente da cadeia de eventos causais físicos (cerebrais). Diversos outros filósofos, no entanto, defenderam a proposição da existência de uma única matéria, considerando o mundo físico como um sistema fechado, isto é, um sistema em que todo evento físico deve ser explicado apenas em termos físicos. O monismo fisicalista admite diferentes posturas. O materialismo eliminativo adotado de mameira enviesada pelo behaviorismo considera os estados mentais desprovidos de referentes e, portanto, úteis apenas na psicologia de senso comum e na comunicação, dada a impossibilidade de remetê-los a estados naturais. Seriam indesejáveis na formulação de uma psicologia científica. William James e Bertrand Russell, por exemplo, distinguem mente de matéria, não a partir de diferenças de substância ou conteúdo, mas a partir de diferenças no arranjo de elementos comuns aos dois, numa acepção próxima ao monismo neutro ou teoria do duplo aspecto. O materialismo emergentista considera o mental como um conjunto de funções emergentes do cérebro – o processo é físico, realizado no cérebro, mas não se tem como explicar os processos mentais utilizando-se das leis e da linguagem da física. Tem-se que levar em conta que um mesmo estado lógico (mental) pode ser realizado por diversos estados físicos – Funcionalismo.(2)

A discussão da relação corpo/mente cabe, no século XX, à Ciência, com a Psicologia e com as Neurociências (termo este que será usado por incorporar diversas sub-áreas como Neuropsicologia, Hodologia Neural, Neuranatomia, etc.).

O trabalho que se segue procura mostrar um dos enfoques da articulação cérebro/mente - o "Projeto para uma Psicologia Científica"(3) de Freud - quer na sua atualidade, quer nos impasses que apresenta e que continuam não superados até hoje. Há 100 anos, Freud lançava as bases para o que pretendia ser a descrição do desenvolvimento das chamadas funções psíquicas. O Projeto procurava adaptar o embrião da teoria psicanalítica ao saber físico e neurofisiológico da época.

Seu objetivo foi produzir uma ciência totalmente interdisciplinar, o que fez com que o considerem o primeiro cientista cognitivo(4). Essa interdisciplinariedade originou não só pontos interessantes da sua obra, que serão abordados a seguir, como também determinou seus pontos mais sujeitos a crítica. Corroborando essa visão possível da teoria de Freud e em especial do Projeto, Pribram(5) argumenta que a metapsicologia freudiana é na verdade uma neuropsicologia, uma importante disciplina na atualidade no estudo da relação cérebro/mente.

Não há como negar a influência que a Psicanálise teve no desenvolvimento intelectual do século XX, embora tenha, desde cedo, se dado preferencialmente fora das instituições universitárias. Entre as muitas razões para essa dissociação entre a ciência ortodoxa e a psicanálise está a falta de conhecimento sólido acerca do tipo de processamento de informação que se dá em nível cerebral. O Projeto é conhecido dentro de uma perspectiva de análise quantitativa do sistema nervoso central, gerando-se, a partir de uma gama de fenômenos quantitativos cerebrais e do desenvolvimento do próprio cérebro, uma partição qualitativa de estados-funções mentais.

Sua atualidade deriva do fato de podermos analisá-lo pelo viés da Teoria da Complexidade, Termodinâmica de estados fora do equilíbrio e auto-organização. Seus impasses - como converter quantidades físicas em significados e mecanismos mentais - persistem insolúveis, embora possam ser revistos, tanto na perspectiva da Complexidade, da Teoria de Sistemas Dinâmicos, quanto na perspectiva de mecanismos funcionais como na Inteligência Artificial.

Freud é, assim, atual na medida em que aplicou a ciência da época no afã de compreender o cérebro e sua articulação com a mente; é moderno porque antecipa, em parte, os modelos de redes neurais. É moderno, finalmente, porque não supera, como ainda não superamos, os impasses ligados à conversão da complexidade cerebral em complexidade proposicional-semântica.

A escolha feita pela Psicanálise de se utilizar de variáveis semânticas no desenvolvimento posterior de sua teoria não é, em princípio, absurda. Há, porém, a necessidade de se compatibilizar os aspectos semânticos e sintáticos de que lança mão com as coações físicas do substrato que os geram, se quisermos manter a relação necessária entre os produtos mentais e o cérebro humano. Freud, porém, abandona o Projeto sem mesmo publicá-lo. Algumas de suas idéias são desenvolvidas em outros textos como "A Interpretação dos Sonhos"(6), mas o caminho para o desenvolvimento da Segunda Tópica - funcionalista - é inevitável mas absolutamente compatível com modelos de Inteligência Artificial Simbólica, e talvez melhor entendida com modelos de Sistemas Complexos Adaptativos com evolução de uma rede neuronal para uma Cadeia Associativa Semântica.

Nosso objetivo será mostrar que o exame do Projeto, à luz das teorias citadas, e de seus impasses, pode ser uma alegoria rica dos desenvolvimentos do século XX no que tange aos modelos de relação cérebro-mente e da relação ainda desconhecida entre complexidade física e significado mental. Os fenômenos comportamentais podem ter múltiplas determinações. Sabemos que alguns comportamentos específicos são essencialmente filogeneticamente determinados e, portanto, pré-gravados no genoma da espécie. Outros podem ser considerados ontogeneticamente determinados, ou seja, moldados pelo desenvolvimento dos vários sistemas do indivíduo. Finalmente, existiriam comportamentos determinados por uma forma especial de processamento do sistema cérebro/mental de características dinâmicas mais que anatômicas, representados pela dinâmica ontogenética contextual.


 

 

 

CAPÍTULO 1

FUNDAMENTOS TEÓRICOS

A visão localizacionista e a visão dinâmica do cérebro humano

 

Tratamos aqui da articulação de duas correntes de pensamento neurocientífico. O localizacionismo(7) se caracteriza pela tentativa de discriminar regiões responsáveis por determinadas funções e subfunções (por exemplo, uma função que diz respeito à linguagem e uma subfunção que processa verbos irregulares). Essa visão deriva inicialmente da frenologia de Gall do início do séc.XIX, que relacionava o tamanho e a forma do crânio com aspectos do comportamento. Em 1861, Broca determinou que certos prejuízos de fala se seguiam a lesões em uma parte restrita do lobo frontal esquerdo e, em 1870, Gustav Fritsch e J.L. Hitzig descreveram o efeito de estímulos elétricos em diversas partes do córtex cerebal (córtex motor) em promover movimento em diferentes regiões do corpo, tanto de soldados feridos quanto posteriormente em animais. Esse localizacionismo teve como subproduto uma tipologia penal com Lombroso e uma tipologia psicopatológica com Kretschmer.

Críticas à posição localizacionista já surgiram em 1820 quando Flouren observou que traumas em diferentes partes do cérebro tendiam a afetar o comportamento de forma semelhante e difusa, levando a pensar que o funcionamento do cérebro se daria como um todo. Por volta de 1930 Lashley demonstrou que o prejuízo de desempenho em ratos, provocado pela retirada de massa cortical, dependia mais da quantidade de massa retirada que do local. Esses dados entusiasmaram psicólogos e neuropesquisadores que viam o cérebro como um computador complexo e que, portanto, não podia ter uma função totalmente aniquilada pela remoção de umas poucas peças (7).

Precisamos entender que, de uma maneira geral, os dados localizacionistas se referem a processos relativamente simples, enquanto as funções observadas para apoiar a visão não-localizacionista se referem a processos mais complexos, que envolvem diversos sentidos. É fato também que um localizacionismo extremo não resulta em benefício por duas razões:

a) primeiramente, é fato que temos uma certa topografia localizacionista no nível das representações sensoriais primárias, somatótomos, mapas retinotópicos, etc. porém, à medida que avançamos para áreas de projeção secundária e terciária no córtex sensorial e para as áreas de integração, cada vez mais perdemos a possibilidade de estabelecer a relação entre o par local x função(8).

b) em segundo lugar, se devo associar um módulo a uma determinada função devo, além de conhecer os módulos cerebrais que contêm determinadas funções específicas, conhecer a classificação de funções mentais. Essa, além de problemática, pode se dividir de acordo com qualquer critério, como por exemplo: 1. Pensamento, emoção e vontade (cognitivo, emocional e conativo). 2. Consciência e não-consciência (por exemplo, voluntário e automático). 3. Separação em categorias como humor, afeto, pensamento, atenção, cognição, como usamos no exame psíquico em Psiquiatria. 4. Intencional e não-intencional (vocabulários com expressão intencional). 5. Circuitos cerebrais e mediadores químicos. 6. Classes de captação através da realização de tarefas e métodos lesionais (PET e Neuropsicologia). 6. Supra, infra e consciente. 7. Ego, id e superego.

Sabemos que os módulos cerebrais, como objetos do mundo físico, podem ser particionados em classes de objetos cerebrais que não possuem semântica mental. Também, a partição dos objetos-funções mentais em classes pode obedecer a diferentes regras de classificação, o que constitui um impasse para o localizacionismo, que apenas consegue determinar o local de processamento preferencial de determinadas síndromes e de determinados padrões cerebrais.

A visão não-localizacionista tem diferentes expressões:

a) o dinamiscismo de uma estrutura temporal de freqüências - binding na faixa de 40 Hz(9).

b) o dinamicismo da representação informacional com medidas entrópicas de variação de probabilidade de ocorrência de eventos.

c) o dinamicismo de uma estrutura não-algorítmica de manipulação quântica de objetos mentais.

Os objetos mentais estariam representados no SNC de forma amplamente distribuída (12). Sendo assim, não seríamos capazes de localizá-los com precisão em determinadas regiões (localizacionismo), nem poderíamos tratá-los de maneira algorítmico-computacional, na forma de sentenças lógicas, como a Inteligência Artificial Tradicional faz (o que requereria uma definição clássica, de tipo ‘se e somente se’), sem perder realismo biológico. Por outro lado, além da ampla distribuição dos símbolos (ou representações) e dos subsímbolos, estes não fogem a uma linguagem mentalista, semantizada em última instância.

A procura de um código temporal legítimo(11) – substrato de um dinamicismo genuíno para a relação do cérebro para com os objetos mentais – no entanto, traz diversos problemas. Devemos inicialmente caracterizar os processos sináptico-neuronais de tipo Barlow-Hebb, uma vez que se pode partir do modo de processamento interneuronal como unidade fundante da constituição de quaisquer objetos computáveis lato sensu no sistema nervoso(12).

Uma sinapse hebbiana é caracterizada pela existência de uma força de conexão entre dois neurônios ou entre a sinalização axonal de um neurônio e a resposta da sinapse dendrítica do outro. Mantém-se a idéia localizacionista se tivermos uma versão de neurônio ou de assembléia neuronal que codifica um traço definido e estanque. É o caso da place-coding de Barlow, Hubel e Wiesel.(9) Consideram que estas codificam um objeto prototípico, em que a freqüência dos disparos de potenciais de ação frente ao estímulo mede apenas o quanto esse objeto é típico(13).

Para que um enfoque dinamicista seja de fato anti-localizacionista é preciso admitir que o intervalo entre as espículas dos potenciais de ação possa gerar uma oscilação, numa determinada freqüência, para codificar uma determinada função. Para se preservar uma riqueza de codificação temporal é preciso mais que uma ligação entre assembléias através de uma constante hebbiana, é preciso existirem faixas de freqüência diferentes para cada classe de funções, como mostrou Koch(12).

Também deve-se fazer alusão ao fato de que uma temporalidade pura não é condizente com uma estrutura dividida, hierarquizada e especializada como o SNC, nem com um certo grau de racionalidade (não tem sentido inserir no eixo temporal a codificação de tudo e, portanto, um dinamicismo de origem temporal deve atentar para o fato de que há classes de eventos que devem sofrer uma caracterização localizacionista e outros uma caracterização temporalista).

Uma dinâmica genuína deve, portanto, ser de uma certa maneira anti-localizacionista no que tange à representação de objetos e funções no SNC. Mais ainda, deve privilegiar uma estabilização dinâmica de significados, o que se dá por aproximação de uma bacia de atração. Ora, tanto a concepção freqüencial de codificação, quanto a dinâmica de significado estarão em acordo com o desenvolvimento de uma teoria de processamento e de significado que pode ser retratada pela Teoria de Sistemas Dinâmicos.

 

 

A linguagem e a articulação das proposições

 

Cremos que o problema da verdade e do significado impregnam de maneira absoluta qualquer separação do mundo em variedades físicas e mentais, essas últimas subdivisíveis em funções como a vontade, a consciência, o juízo, a memória, etc.

Sabemos que podemos distinguir proposições de não-proposições e, dentre as proposições, as falsas das verdadeiras. Por proposição, designamos toda sentença bem construída da linguagem ordinária. As proposições podem ser falsas ou verdadeiras, de acordo com a obediência a um conjunto finito de regras que regem a construção das sentenças. Essas regras, aplicadas ao conjunto finito de primitivos lingüísticos, geram, praticamente, um número infinito de proposições.

Uma concepção possível de mente afirma que ela pode articular tudo aquilo que significa, tendo compromisso prático imediato apenas com aquilo que é verdadeiro. Processaria proposições, separando-as em verdadeiras e falsas, ocupando-se preferencialmente das primeiras. Porém, um sintoma factício, a fabulação, a conversão, a histeria, etc. são da ordem das proposições falsas, assim como a crendice, a alegoria e a invenção (não são verdadeiras nunca, ou apenas provisoriamente, como é o caso do contrafactual científico e como foi o da descoberta de que Venus é a Estrela da Manhã). Delírios esquizofrênicos, em que já se perderam regras de construção sintática, e os sonhos estariam no domínio das não-proposições (Fig.1), apontando para a possibilidade da mente, de alguma forma, processar não-proposições.


Proposição Verdadeiras

Falsas Criação, invenção, teoria

Crendice, sintoma, conversão

Não-proposição sonhos, psicoses

Fig 1. Os sistemas lógicos, de uma maneira geral, lidam com proposições e sua veracidade ou falsidade. O sistema mental talvez tenha, no âmbito da patologia e do sonho, que lidar também com não-proposições.


 

Complexidade mental: significado e proposição

Duas são as razões que embasam a emergência de uma estrutura complexa, a mente, a partir de um certo ponto da filogênese do sistema nervoso: a primeira é a linguagem e, a segunda, a capacidade de manipulação de estruturas físicas complexas, usando-se estabilidade estrutural (estrutura + determinismos + preditibilidade) para situações triviais e instabilidade estrutural (estrutura + determinismo – preditibilidade) para situações novas, aprendizado, julgamentos valorados e manipulação de cenários contrafactuais. Justamente o que unifica o fenômeno da linguagem na sua capacidade de significar, embora à custa de proposição falsa e manipulação de regiões de instabilidade estrutural no espaço de sinais, é a mente na sua expressão plena. O que interessa do fenômeno mental é essa propriedade de instabilidade estrutural, o que gera alteração rica do ponto de vista dos códigos (e, como veremos adiante, aumenta substancialmente a entropia tanto informacional quanto termodinâmica do sistema). Também a linguagem, do ponto de vista dos enunciados proposicionais com valor falso de verdade, descortina uma riqueza insuspeitável, embora seja, ao mesmo tempo, o meio através do qual a linguagem pode, no domínio público-coletivo, gerar o engano e, no domínio privado-pessoal, o sintoma.

Não há, então, como não associar a complexidade do sinal, domando a estrutura não-linear e complexa do processamento cerebral, e a linguagem, usando não apenas a proposição verdadeira, mas também a falsa, significativa e, portanto, potencializadora de discursos.

Se o cérebro tem uma complexidade enorme e portanto está sujeito, pelas leis determinísticas, a sofrer desvios em sua trajetória de estados à mínima variação das condições iniciais, podendo inclusive apresentar comportamentos caóticos, ou a alterar as topologias do espaço de estados pela mínima variação no valor de parâmetros, a mente tem uma complexidade significacional não-enumerável, número de proposições bem construídas, recursividade, e também complexidade no que tange a distinguir uma classe de eventos interessantes entre as proposições falsas e uma classe de eventos fundamentais entre as proposições verdadeiras.

 


Complexidade Cerebral, Caos e Bifurcações


A B


A B’s

Fig 2. Sistemas simples pressupõem a relação de A com B. Sistemas complexos admitem a relação de A com B, mas também com outros B’s. A complexidade e a não-linearidade introduzem a possibilidade de bifurcações e de caos.


 

A idéia de que possamos ter uma relação de determinação e previsão de um estado A para um outro B é o que subjaz aos sistemas lineares e às porções estáveis estruturalmente nos sistemas não-lineares. Na linguagem, a existência de plausibilidade e coerência, vincula não apenas um único A a um único B, mas, a um A, muitos B’s, todos devidamente coagidos pelo significado (Fig.2). Temos, então, que quanto maior for a complexidade do sistema da linguagem e do significado, maior seria a entropia informacional deste. A coerência de um discurso, de uma certa forma, é similar à possibilidade de manutenção de um determinismo de significado e de uma perda de linearidade veritativa.

A estrutura dúplice de complexidade cerebral no plano dos sinais e de complexidade significacional no plano da mente, é o que a torna não-reduzível ao cérebro e, ao mesmo tempo, torna-os – mente e cérebro – duas facetas de uma mesma moeda (mônada leibniziana) complexa.

O tratamento da complexidade cerebral através de Teoria de Sistemas Dinâmicos, Termodinâmica e Criticalidade será visto proximamente. Da linguagem, agora, nos bastará afirmar que a proposição e o significado se interrelacionam de uma estranha forma na gênese do discurso. Esse entrelaçamento é complexo, tantas são as instâncias possíveis através do uso recursivo das regras. O sistema adquire complexidade pela recursividade da regra finita e dos primitivos finitos. O número de significados explode, devendo ser uniformizado, não como uma característica própria das coisas, mas como um padrão regular de uso pela comunidade. O significado é, ao mesmo tempo, o nome da classe de todas as ocorrências de um termo e, também, o conjunto de proposições que se utiliza para definir um termo.

Quando definimos algo, nos utilizamos de uma ou mais proposições, num encadeamento de discursos ostensivos, indutivos e dedutivos. O aprendizado do significado de um termo, para além da ostensão, indução e dedução, deverá ainda aguardar uma gama finita de experiências com aquele termo, findas as quais, estaremos habilitados a usar corretamente a classe em questão. Um significado é o nome de uma classe associada a um conjunto atrator, que vai sendo construído pelo exame de diferentes condições iniciais e diferentes parâmetros numa dada estrutura matemática.

Numa tentativa de expressar a aquisição de um significado de forma matemática, deveríamos tentar relacionar os diferentes tipos de discursos utilizados no processo, além de variáveis que dessem conta de características próprias do sistema cognitivo em questão. Dessa forma, vamos considerar uma estrutura matemática que descreva um sistema dinâmico de tempo discreto ou contínuo. A classe de valores de parâmetros e condições iniciais capazes de gerar atratores de tipo ponto assintoticamente estável (para nomes) e ciclos-limite (para a maior parte dos outros conceitos) e, finalmente, atratores densos (para o caso de defecção significacional, em que pese a estabilidade estrutural) pode ser chamada de significado daquela estrutura. Como não sabemos qual é a correta substituição ponto a ponto de parâmetros, condições iniciais e variáveis de estado, usamos a aproximação hermenêutica para geração de cadeias de significado de conceitos e de discursos, caso em que temos o acoplamento de diferentes conjuntos atratores dinâmicos.

 

 

A Ciência Cognitiva e os modelos Simbólicos (IAS) e Conexionistas (IAC)

 

A Ciência Cognitiva (CC) surgiu como superdisciplina na década de 50 como conseqüência das críticas que foram feitas ao behaviorismo(14), juntamente com o desenvolvimento de pesquisas em Computação e de novos conhecimentos nas Neurociências.

Os modelos computacionais tornaram-se úteis em CC por representarem uma excepcional forma de expressar teorias. Vinha ao encontro à idéia de que cognição nada mais é que uma forma de computação. Os modelos em computador se desenvolveram a partir de Turing e de sua formulação de uma máquina universal. Para ele, tal máquina poderia ser programada para computar qualquer função descrita formalmente. Seria dotada de uma memória infinita e sofreria influência de seus estados passados.

Os computadores apresentariam, assim, a plasticidade suficiente para modelar a cognição humana, e seriam capazes de produzir comportamento dependente de conhecimento explícito. Além disso, seria uma forma profícua de lidar com o grau de complexidade do processo subjacente à cognição, fornecendo uma teoria ponte entre os processamentos internos e os comportamentos expressos.

IAS (Inteligência Artificial Simbólica)

Nesta visão inicial que fornecemos dos computadores em CC falaremos de arquiteturas seriais, de tipo "von Neumann", digital(15). Temos a existência de alguns "inputs" e "outputs" que seriam interpretáveis, ou seja, teriam o poder de designar algo externo. Por designar entenderemos: a) criar associações entre coisas existentes como objetos abstratos (números), objetos de raciocínio (proposições, predicados) e metas; b) dar acesso a outros símbolos; e c) usar um intérprete para execução de uma ação designada pelo símbolo.

Os símbolos lógicos não teriam significados e se relacionariam de acordo com regras formais – regras sintáticas. A relação entre os símbolos e os objetos que simbolizam se daria por regras semânticas.

A visão clássica de Inteligência Artificial considera que existem propriedades que constituem o computar e, portanto, a cognição, que seriam:

  1. a existência de um processador que escreve expressões simbólicas na memória, as lê e altera.
  2. a capacidade de manipular essas expressões obedecendo a regras que mantêm a semântica dos símbolos;
  3. a existência de uma memória constituída por qualquer forma de estoque.

Assim, nessa visão, tanto a mente quanto os processos cognitivos são considerados emergências do cerebral, sem qualquer possibilidade de redução. Daí a possibilidade de instanciação de processos mentais em diferentes arquiteturas ou meios físicos, e a pouca utilidade do conhecimento do funcionamento cerebral para esses modelos.

A modelagem vai na direção de um alfabeto primitivo (objetos conhecidos), blocos mentais (Clarck e Fodor) que se relacionam de forma descritível pelas leis da Lógica tradicional (primitivos, conectivos, etc.).

 

IAC (Inteligência Artificial Conexionista)

Uma outra corrente da CC admitia a importância do conhecimento cerebral para o estudo da mente e tentou caminhar para um modelo computacional que se aproximasse da estrutura do sistema nervoso. Surgiram as arquiteturas conexionistas(16), o processamento paralelo distribuído (PDP) ou redes neurais. Seus objetivos foram se assemelhar ao SNC sendo constituídas por unidades interconectadas ou semelhantes às sinapses, com diferentes valores de conexão, de ação excitatória ou inibitória, de tipo analógico ou digital. As estruturas constitutivas dos modelos tradicionais como processadores, memória, "software", deram lugar a um processamento baseado na dinâmica, a uma memória distribuída nas conexões entre as unidades, e à solução dos processos alcançada como resultado de uma estabilidade da atividade após treinamento e aprendizado. Poder-se-ia, então, ter soluções para problemas que não tivessem todos os passos do seu processamento conhecidos (ou problemas sobre os quais não se conhecessem regras de solução). A computação não se faria sobre regras, mas sobre regularidades de objetos complexos cuja representação se encontra distribuída nas diversas conexões entre as unidades.

O grande apelo das redes neurais seria sua capacidade de manipular objetos complexos (cenários, padrões, gestallts), os mais interessantes no estudo do processamento mental, a partir do reconhecimento de regularidades, que permitiria, sem a necessidade de regras fixas como na IAS, e sem o conhecimento da totalidade do objeto, levar o sistema a se estabilizar em determinadas soluções.

 

 

 

 

 

 

 

Redes Neurais e a não-superação do impasse da complexidade semântica

Apesar das redes neurais oferecerem soluções interessantes para a modelagem dos processos mentais, não conseguem superar o impasse de qual semântica eleger para as unidades-neurônios(17). Aparentemente solucionam situações em que é nítida a diferença de funcionamento de um modelo IA e do processamento cerebral (a perda de memória com o envelhecimento), mas não resolvem o problema da visão funcionalista ou emergentista, uma vez que necessitarão de uma semântica mental para interpretar vetores de entrada e saída, não-reduzíveis ao cerebral. A rede neural sem uma semântica mental é apenas um identificador de sistema; com entidades mentais a dar-lhe interpretação para os estados de entrada e saída, cumprem apenas a redução sintática ao cerebral (estilo de processamento), deixando, no entanto, em aberto a questão da redução a uma semântica genuinamente cerebral (como veremos, impossível no plano dos objetos e talvez possível no plano das funções)

Todas as tentativas de solucionar o impasse da relação cérebro/mente com o auxílio dos modelos computacionais, no entanto, parecem fracassar em algum ponto. Os modelos de IAS carecem de realismo neural, não levam em conta determinadas características do funcionamento mental, como a relativa resistência que processos como evocação de memória remota apresentam diante da perda neuronal. Nesses modelos a destruição de partes do programa acarretam perda de parte do conhecimento.

As redes neurais, por outro lado, buscam um maior realismo cerebral e uma forma de processamento temporal superponível aos códigos temporais de freqüência encontrados no processamento cerebral. Os vetores de solução, porém, continuam precisando de uma interpretação nos primitivos da linguagem, não encontrando resposta para o problema dos símbolos mentais.

A impossibilidade de conversão total de uma semântica e sintaxe mentais em uma semântica e sintaxe cerebrais (podendo-se apenas reduzir a sintaxe mental à cerebral e, assim mesmo, à custa de uma visão dinâmica pobre do SNC – a das redes neurais) será o principal elemento de nosso argumento em favor da atualidade do Projeto e da possibilidade de uma aproximação dinâmico-hermenêutica através da linguagem da dinâmica complexa cerebral subjacente

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Projeto e o estado atual da pesquisa

Sintaxe dinâmica: teoria mecanicista/econômica do Projeto. Semântica funcional: surgimento de mecanismos psíquicos, desejos, representações meta, etc.

Desde o Projeto e "Estudos sobre a Histeria", reforçado no capítulo VII da "Interpretação dos Sonhos", a concepção de um aparelho psíquico por Freud se dá em torno da existência de uma energia de caráter desconhecido que o estimula e circula por seus diversos elementos.

Juntamente com os aspectos tópico e dinâmico, o econômico constitui a chamada metapsicologia – teorização sobre os mecanismos de funcionamento psíquico. Freud acreditava que, apesar de desconhecer a essência de tal "energia" circulante, ela seria um dia passível de identificação e quantificação. Essa energia seria o combustível do processo de pensamento, carregando os vários elementos da cadeia associativa, da contraposição de idéias na gênese de alguns sintomas, enfim, de toda variedade de funcionamento mental.

Sabemos hoje que a comunicação sináptica se dá através de substâncias químicas -neurotransmissores- e que a corrente elétrica gerada pela despolarização da membrana neuronal é, de alguma forma, codificada, e sua informação transmitida por um determinado padrão de disparo de potenciais de ação(13).

Principalmente, a partir da Segunda Tópica, a metapsicologia freudiana adquire um aspecto essencialmente semântico. Os conteúdos mentais da história individual do sujeito entram na complexa relação entre as instâncias psíquicas – Ego, Id, Super-ego –, sofrem interferências e se modificam fenomenologicamente pelos mecanismos de defesa, trabalham no sentido de aproximar-se de ideais, realizar desejos,etc. O aspecto dinâmico liga-se intimamente a uma semântica mental própria.

A guinada teórica que pretendemos fazer agora é descrever as semelhanças entre a complexidade física, meio de descrever o sistema físico-cerebral subjacente, e a complexidade semântica, substrato para o desenvolvimento de uma metapsicologia e de uma tipologia patológica baseada na formação do Inconsciente e o acesso possível a ele mediado pela linguagem e pela transferência.

Complexidade: desenvolvimento geral

São considerados complexos os sistemas heterogêneos(18), passíveis de particionamento, em que o estudo das partes não reflete as propriedades do todo. Nesse sentido, os sistemas biológicos são naturalmente complexos. Simplificadamente, são sistemas formados por uma grande quantidade de unidades que geram comportamentos coletivos complicados a partir de sua interação.

Precisamos supor a possibilidade de modelar o sistema através de variáveis de estado. Caminhando um pouco mais, podemos tentar delimitar o que são Sistemas Complexos Adaptativos. Além de serem constituídos por um grande número de agentes que interagem continuamente, esses sistemas precisam ter seus "comportamentos agregados", aqueles que surgem da interação de seus agentes, entendidos como não-lineares. Isso quer dizer que esse comportamento não pode ser derivado da composição simples dos comportamentos isolados. Os agentes são numerosos e variados. A diversidade de agentes exerce tal papel que a retirada de um deles desencadeia uma cascata de mudanças de forma a "preencher" o vazio no processo. Assim, a diversidade pode se desenvolver e o comportamento agregado apresenta novidades continuamente. Os agentes dos Sistemas Complexos Adaptativos usam modelos internos, no sentido de grupo de regras que possibilitam a antecipação das conseqüências de suas ações.(19) As partes do sistema seriam, então, descritíveis por equações dinâmicas, assim como o sistema como um todo. As equações dinâmicas seriam montadas a partir de variáveis de estado – grandezas que variam de forma considerável no tempo – e parâmetros –grandezas físicas cuja variação na escala temporal em questão é imperceptível.

Podemos admitir, para o sistema neuronal apresentado no Projeto, a existência de parâmetros como as características de permeabilidade e impermeabilidade que definem inicialmente os sistemas f e Y respectivamente; e variáveis de estado como a Qn processada e a variação da resistência das barreiras de contato com a formação de vias de facilitação.

Auto-organização

O sistema nervoso humano e sua contrapartida mental são sistemas biológicos complexos que podem ser analisados do ponto de vista da auto-organização.

Em termos gerais, segundo Monteiro e Piqueira (20), diz-se que um sistema apresenta auto-organização se adquire, de forma espontânea, uma estrutura funcional, temporal ou espacial. Essa estrutura é demonstrada pela coerência entre as variáveis do sistema. De espontâneo estamos chamando o processo de mudança que ocorre toda vez que um certo parâmetro de ordem ultrapassa um valor crítico. Matematicamente, esse seria um ponto de bifurcação, em cujas proximidades as não-linearidades do sistema amplificariam as flutuações das variáveis do sistema, levando-o a instabilidades e, conseqüentemente, a mudanças qualitativas do comportamento do sistema. A criticalidade auto-organizada representará, no desenvolvimento da hipótese principal desse trabalho, o que chamaremos de dinâmica ontogenética contextual.

O sistema nervoso (o modelo do Projeto também) pode ser considerado uma estrutura dissipativa, pois é um sistema aberto, inicialmente fora do equilíbrio, que caminha na direção da organização dissipando, constantemente, a energia e a matéria que recebe de fora. Para se manter num estado estacionário deve obedecer ao princípio de produção mínima de entropia sugerido por Prigogine(21).

Entropia Termodinâmica

A Termodinâmica surgiu no século XIX a partir da necessidade de se descreverem leis do funcionamento das máquinas térmicas que vinham revolucionando o mundo desde o século anterior. Surge como uma teoria fenomenológica, que descreve o comportamento térmico de corpos macroscópicos. Suas duas leis básicas são o princípio de conservação da energia e o princípio que dá o sentido da evolução do sistema. À segunda lei se associa o conceito de entropia, uma medida da capacidade de transformação do sistema. Dessa forma, mesmo considerando-se a energia de um sistema constante, temos que sua qualidade (expressa pela capacidade de produzir trabalho) pode mudar. Nos sistemas isolados a entropia pode aumentar ou permanecer inalterada. Nos processos reversíveis ela se conserva, e nos irreversíveis aumenta. Para nós o comportamento da entropia em sistemas irreversíveis é que vai interessar, dado que os sistemas biológicos são, por definição, irreversíveis.

A termodinâmica ganhou, com Boltzmann, uma interpretação estatística, com a introdução dos conceitos de micro e macro estados. Com isso temos a possibilidade de vários microestados de um sistema – um gás, por exemplo – mostrarem as mesmas propriedades médias, representando um mesmo macroestado. A evolução dos microestados se dá em direção ao equilíbrio, ou seja, para estados de entropia mais baixa(22). No entanto, o interessante de se fazer uma medida estatística da entropia é relacionar sua produção ao fato de que novos microestados se tornaram acessíveis ao sistema com o passar do tempo. É exatamente isso que ocorre à medida que o aparelho psíquico descrito no Projeto vai sendo alimentado com novas experiências. É o que ocorre toda vez que estabelecemos uma nova conexão entre elementos de um sistema complexo, como uma rede semântica.

Vemos com isso que a idéia de que uma entropia maior está relacionada a uma maior desordem do sistema só é válida para o espaço de fase, que é formado pelas coordenadas geométricas e pelos respectivos momentos conjugados dos estados das partículas que constituem o sistema. No mais, se temos maior número de estados possíveis temos maior organização e maior entropia(20).

A entropia de Boltzmann se presta ao exame de sistemas biológicos pois a segunda lei da termodinâmica parece ser a única que aponta uma direção temporal de desenvolvimento de um sistema. Prigogine avançou com especulações quanto à termodinâmica de sistemas abertos, aqueles sujeitos a fluxos de energia e matéria, em troca com o meio. Sistemas abertos geralmente encontram-se em situações de impossibilidade de equilíbrio (produção nula de entropia), mas podem buscar estados estacionários em que a produção de entropia é mínima. Para ele as condições de não-equilíbrio são essenciais aos sistemas auto-organizantes. Chamou esses sistemas de abertos e fora do equilíbrio de estruturas dissipativas. Podemos considerar o sistema do Projeto como um exemplo de sistema que exporta entropia.

Informação: teoria geral

Vamos introduzir o conceito de informação a partir da teoria matemática da comunicação como apresentada por Shannon e Weaver(23). O termo comunicação pode ser entendido como qualquer procedimento através do qual uma mente pode influenciar outra, ou seja, todo comportamento humano. Estendendo sua abrangência, seria todo procedimento pelo qual um mecanismo afeta outro mecanismo. Esta abordagem acarreta a existência de 3 níveis de problemas em comunicação:

a) o nível técnico, em que se discute o grau de certeza com que os símbolos da comunicação, sejam eles palavras ou corrente elétrica, são transmitidos. Um sistema de comunicação pode ser representado por uma fonte de informação que seleciona uma mensagem de várias possíveis, um transmissor que transforma a mensagem em algum tipo de sinal transmitido por um canal de comunicação, um receptor que decodifica o sinal em uma mensagem, e um destino. No processo de transmissão da informação, alguns elementos podem ser adicionados ao sinal, sem que estivessem presentes na fonte de informação, podendo adulterar a mensagem e são chamados de ruído.

b) o nível semântico, que diz respeito à precisão com que os símbolos em questão carregam o significado desejado. Isto é, está relacionado ao grau de aproximação ou de identidade entre o significado desejado pela fonte de informação e o significado apreendido pelo receptor. No campo da comunicação pela linguagem podemos ter uma idéia dessa identidade por nos utilizarmos de explanações transmitidas de forma previamente operacionalizável como, por exemplo, entender o significado da palavra "sim" em qualquer idioma.

c) o nível da eficácia, que questiona quão efetivamente o significado recebido afeta o comportamento do receptor da maneira desejada. Uma mensagem que não afete em nada o receptor não pode ser considerada como tendo qualquer eficácia, já que este é o objetivo da comunicação, seja ele mais ou menos evidente para o observador.

Precisa ficar claro que a palavra informação nessa teoria é usada com relação ao que pode ser dito, ou transmitido. Isto é, é uma medida do grau de liberdade que uma fonte de geração de mensagens tem para escolher a que será selecionada. Nesse sentido não deve ser confundida com significado, nem com conhecimento. Dizemos que temos uma unidade de informação quando podemos escolher igualmente entre duas mensagens possíveis. Em termos matemáticos, a quantidade de informação é definida pelo logaritmo do número de alternativas possíveis. Por conveniência usa-se o logaritmo na base 2, de tal forma que a situação em que se tem duas opções equiprováveis representa uma unidade de informação, ou 1 bit (binary digit).

Em sistemas mais complexos temos que levar em conta que as probabilidades das diversas mensagens possíveis podem ser diferentes e, além disso, dependentes das escolhas anteriores. Isso é o que ocorre, por exemplo, com a probabilidade de ocorrência de letras numa palavra escrita. A escolha de símbolos, respeitando suas diferentes probabilidades, é um processo aleatório, e sua descrição, levando em conta a relação entre eventos, é feita através das chamadas cadeias de Markoff. É o que ocorre nos casos de maior relevância na análise do Projeto e no processo hermenêutico que surge do arranjo especial dos sistemas neuronais nele descritos.

Sistemas Dinâmicos não-lineares

Os sistemas dinâmicos são aqueles que se modificam no tempo(24). O estudo desses sistemas lida não só com o conceito de mudança no tempo, mas também com a idéia de taxa de mudança e variações dessa taxa no tempo.

A descrição desses sistemas é feita geometricamente pelo retrato de fase, criado por Poincaré. O espaço de estados é um modelo de todos os estados possíveis do sistema, e sua dinâmica determina uma estrutura chamada bacia (ou domínio), cujo núcleo constitui um atrator. Os atratores são os estados que de fato serão observados nesses sistemas, pois para eles tendem a convergir ao longo do tempo.

Os sistemas dinâmicos são chamados de não-lineares quando não satisfazem o princípio de superposição, sendo passíveis de instabilidade estrutural, isto é, mínimas variações em um parâmetro levando o sistema para soluções qualitativamente diferentes.

A relação entre informação e sistemas dinâmicos é fundamental para que possamos revisitar com os elementos físico-matemáticos contemporâneos o Projeto de Freud. Tanto a dinâmica cerebral é não –linear que à variação de quantidades num plano se faz seguir a variação de qualidades em outro. Ora, a variação informacional é fundamental porque o que caracteriza um sistema não-linear nas regiões de bifurcação é o ganho de entropia informacional. Assim, a mente e a consciência podem ser vistos como um sistema que manipula estados de entropia informacional crescente.

No Projeto de Freud o que se vê é que a mente, na sua porção inconsciente, é também um sistema sujeito ao aumento de entropia informacional.

Como veremos adiante, diante de um modelo simplificado de sistema nervoso, a consciência seria o "locus" de manipulação de variedades não-convergentes, instáveis estruturalmente e com alto grau de entropia informacional(11).

Num modelo ampliado que iremos propor no último capítulo, na verdade, o sistema pode ser dividido em quatro partes: a consciência (fenomenológica e controladora) e a não-consciência (automática e a intencional). A relação entre a consciência controladora e a automática é a descrita no artigo de Del Nero e Piqueira (11). A relação entre essa consciência e a forma freudiana intencional é oposta – o inconsciente é depositário de instabilidade estrutural, alto grau de entropia informacional e a aproximação de seus estados anômalos se faz por um equivalente dinâmico de sua complexidade física – a linguagem e a construção dinâmica de domínios de significado.

CAPÍTULO 2

O "Projeto" de Freud

 

A obra

Para examinar o "Projeto para uma Psicologia Científica" – o Projeto – (3,25) precisamos inicialmente situá-lo em seu contexto histórico, no que diz respeito ao desenvolvimento do trabalho de Freud e ao lugar que ocupa no pensamento psicanalítico.

Freud começa a escrever o Projeto em 1895, poucos meses depois de publicar seu trabalho conjunto com Breuer, "Estudos sobre a Histeria", em que já descreve, de forma bastante abstrata, uma teoria da mente. Nessa, já lança a idéia de que os processos patológicos da histeria seriam causados por determinadas recordações. Contra elas, o ego – porção coerente e organizada da personalidade - se defenderia, isolando-as e organizando o material recordativo ao seu redor, com ligações associativas mais ou menos intensas, de forma a evitar que as recordações com potencial patógeno chegassem à consciência. Assim, o processo de cura caminharia o trajeto inverso, "removendo" camada por camada de material associativo até chegar ao núcleo patógeno – a recordação – que, "lembrada" agora de forma consciente e associada ao afeto adequado, pode refazer o nexo causal com o sintoma e interrompê-lo.

O Projeto tem, para ele, a importância de possibilitar o desenvolvimento de uma teoria do funcionamento mental com substrato quantitativo – uma espécie de "economia de forças neuronais". Será o reflexo de sua formação de neurocientista, a busca de uma psicologia cerebralmente embasada que conferisse estatuto científico. Tentará, também, retirar do entendimento dos mecanismos psicopatológicos um modelo coerente do funcionamento mental normal.

O Projeto se divide em três partes:

  1. Esquema Geral, em que, em suas próprias palavras, tenta "fornecer uma psicologia científico-naturalista, ou seja, apresentar processos psíquicos como estados quantitativamente determinados de partes materiais capazes de serem especificadas". Essas partes materiais seriam os neurônios, células distintas com barreiras de contato entre elas (as sinapses, descobertas posteriormente) que de certa forma direcionariam e modulariam a passagem de quantidades de energia (Q) responsável pela distinção entre atividade e repouso, e que estaria sujeita à lei geral do movimento.
  2. Psicopatologia, em que descreve os mecanismos mais comuns de produção de sintomas e teoriza a existência de uma defesa patológica, em função da necessidade do sistema psíquico de se defender, a qualquer custo, do desprazer que o aumento de energia em determinados subgrupos de neurônios geraria.
  3. Tentativa de apresentar a gênese dos processos psíquicos normais, em que apresenta suas idéias acerca do desenvolvimento do pensamento como uma modificação da tendência à descarga imediata de energia, e da consciência dos processos psíquicos, dada pela qualidade das vivências, resultado da transmissão de energia para um grupo determinado de neurônios.

A impossibilidade, em parte imposta pelo conhecimento da época, em parte, como veremos ao longo desse trabalho, por uma questão de irredutibilidade, de aprofundar as concepções neurológicas apresentadas, de forma a responder adequadamente ao surgimento do processamento mental, e a riqueza do material clínico de que dispunha levaram Freud, como veremos adiante, a provisória e aparentemente abandonar essa tentativa neurobiológica e a desenvolver sua teoria em termos puramente psicológicos. No entanto, em que pese o relativo ostracismo que o Projeto conheceu por parte de boa parcela dos psicanalistas durante muitas décadas, praticamente todos os conceitos metapsicológicos posteriormente desenvolvidos já se encontravam nele fundamentados.

Esquema geral

Para apresentar sua teoria do desenvolvimento do aparelho mental, Freud recorre à observação clínica das patologias, em especial da histeria, para ressaltar o caráter quantitativo de sintomas como a compulsão e as representações histéricas superintensas. Dessa forma, chega à formulação do primeiro princípio importante para sua teoria, o da inércia neuronal, que estabelece que os neurônios tendem, necessariamente, a se livrar de qualquer Qn (Q que ocupa neurônios) que venha a ocupá-los, uma vez que a excitação nervosa seria definida como quantidade de energia em fluxo.

O princípio da inércia (que não tem relação com o conceito de inércia em Física, mas sim com a tendência que sistemas dinâmicos têm de se estabilizar em estados de baixa energia) seria o ponto de partida para explicar a arquitetura dupla dos neurônios, divididos em motores e sensoriais, surgida para descarregar a Qn recebida dos estímulos internos e externos. Essa eliminação da excitação representaria a função primária do sistema nervoso, na tentativa de mantê-lo sem estímulos. Desenvolve-se, no entanto, uma função secundária, com a conservação de caminhos privilegiados de descarga, aqueles ligados à cessação do estímulo (fuga do estímulo).

A complexidade crescente do organismo faz com que o sistema nervoso seja constantemente estimulado por processos orgânicos não passíveis de saciedade permanente, como a fome, a respiração e a sexualidade. Isso acarreta a violação imediata do princípio da inércia, uma vez que tais estímulos só podem cessar frente a realizações no mundo externo, através de uma ação específica. Tal ação demanda um gasto de Qn superior à fornecida pelo estímulo interno e para tanto o sistema nervoso deve abandonar o princípio da inércia e suportar um certo acúmulo de Qn para realizar uma ação específica no mundo externo. Como transformação do princípio da inércia, o sistema nervoso passa a tentar manter a Qn o mais baixa possível e mais, tenta evitar elevações desta, mantendo-a constante (Princípio da Constância).

Esses neurônios seriam entidades distintas em contato uns com os outros através de prolongamentos do corpo celular –, por onde recebem os estímulos, – e cilindros eixos, por onde os emitem. Além disso poderiam apresentar diferenças de calibre de suas ramificações. Dessa forma, o neurônio realizaria o princípio da inércia à medida que receberia os estímulos pelas ramificações, estando ocupados enquanto a Qn os preenchesse, e a descarregaria pelo cilindro do eixo, equivalente a um órgão de eliminação. A suposição da existência de um obstáculo, localizado no contato entre os corpos neuronais, à eliminação da Qn permitiria o acúmulo de certa quantidade desta. Como veremos posteriormente a existência dessas barreiras de contato será muito importante na descrição de diversos processos.

O primeiro ponto a ser ressaltado é que a existência dessas barreiras permite que o tecido nervoso tenha memória. Ou seja, pode ser alterado permanentemente por um único processo, por uma única passagem de Qn. Como, para que tenhamos o desempenho esperado do sistema nervoso, temos que ter neurônios constantemente permeáveis, ou seja, que após receberem uma Qn possam descarregá-la e voltar ao estado de repouso anterior para receber novas Qn, e isto não seria possível com o processo descrito para a memória, temos que aceitar a necessidade de existirem pelo menos duas classes de neurônios, os "perceptivos", permeáveis aos estímulos, e os "recordativos", que seriam modificados pela passagem de Qn, sendo, por isso, mediadores da memória e dos processos psíquicos em geral. Freud chamou o primeiro sistema de neurônios de f e o segundo de Y .

Como surgiria de fato a memória desse esquema acima descrito? A memória estaria na forma como as Qn modificariam as barreiras de contato entre os neurônios Y , estabelecendo grupos de neurônios com caminhos de facilitação entre eles. Assim, a memória seria resultado de uma aproximação dos neurônios Y às características dos f . A facilitação dependeria da intensidade da Qn e do número de ocorrências do processo.

Essas Qn teriam que ser de magnitude semelhante a das barreiras de contato, de outra forma, se fossem muito mais intensas, venceriam com facilidade as resistências e não existiria diferença entre os diversos caminhos para as Qn, nem modificação permanente da valência dessas barreiras. Para se defender de Q externas intensas o sistema nervoso se utiliza de "aparelhos de terminações nervosas", que de alguma forma filtrariam essa Q que chegaria aos neurônios f , amortecendo-as. Assim, a disposição espacial do sistema nervoso, com seus vários órgãos sensoriais, serve ao afastamento das Q e seu funcionamento à eliminação.

Pode-se tirar a conclusão que a disposição do sistema nervoso destina-se a manter Q externas longe de f e mais ainda de Y . No entanto, pode-se imaginar que um fenômeno como a dor esteja relacionado a uma falha dessa organização. Sendo o princípio primário do funcionamento do sistema nervoso a fuga (ou descarga) do estímulo, a dor consistiria na irrupção de grandes Qns na direção de Y . Como a passagem de Qn é responsável pelas facilitações, a dor deixaria atrás de si facilitações permanentes em Y com cancelamento total das barreiras de contato, formando um caminho de condução semelhante ao encontrado no sistema f .

Até este ponto Freud só tratou de processos quantitativos. O primeiro impasse surge frente ao papel do processamento consciente. A consciência dá a qualidade dos processos mentais, cuja diversidade se dá na relação com o mundo externo. Como se originam as qualidades? Frente à necessidade de colocar a distinção qualitativa no sistema perceptivo f , mas ir ao encontro do fato da consciência se dar em níveis mais elevados de processamento cerebral, portanto em Y , e existir um processo realizado exclusivamente por Y , o recordar, que é sem qualidade, teríamos que admitir a existência de um terceiro sistema neuronal w . Este seria estimulado junto com a percepção, e seus diferentes estados de excitação resultariam nas sensações conscientes. Restava ainda resolver o problema da chegada de Qn em w pois estes neurônios deveriam ser, ao mesmo tempo, totalmente permeáveis para constantemente processar novas qualidades, e trabalhar com Qn muito pequenas, menores até que Y . Esses neurônios se comportam como perceptivos, porém com uma facilitação completa que não vem da quantidade. Freud supõe a existência de uma transferência de Qn de caráter temporal. Isto é, w receberia as Qn de baixíssimas intensidades com um determinado período que não estaria sujeito à resistência das barreiras de contato, e se propagaria em todas as direções. O sistema w não captaria as Qn responsáveis pelo desenvolvimento dos processos psíquicos, mas seria totalmente permeável ao período, ou seja, a uma sinalização temporal, que junto com um preenchimento mínimo de Q seria o fundamento da consciência. As diferenças de período viriam da percepção. É razoável pensar que os órgãos dos sentidos atuam não só como proteções contra Q, mas também como filtros, permitindo passagem de estímulos de determinados períodos e não de outros. A consciência seria a manifestação subjetiva dos processos físicos do sistema nervoso.

Além das qualidades sensoriais a consciência é responsável pelas sensações de prazer/desprazer. O princípio primário da inércia seria um dado fundamental da vida psíquica; em outras palavras, seria a tentativa de evitar o desprazer, sensação processada em w quando ocorre aumento de Qn em Y . Da mesma forma o prazer seria resultado em w da eliminação de Qn, pelo processamento em Y .

O sistema nervoso funcionaria de tal sorte que uma Q externa encontraria inicialmente barreiras no aparelho terminal nervoso que fracionaria a Qn destinada a estimular o sistema f . Já existiria neste ponto um limiar para operação do sistema, bem como uma permeabilidade a cada tipo de período ou qualidade. (O sistema auditivo seria permeável às faixas de onda sonora captáveis pelas terminações nervosas do ouvido interno, enquanto o sistema visual captaria as diferentes ondas luminosas e padrões visuais). O sistema f se conectaria diretamente com Y e w , por onde fluiria sem impedimento a qualidade (período). Isto quer dizer que os neurônios seriam sensíveis a variações de freqüência, e que estas codificariam as diversas qualidades psíquicas. Por outro lado, a Qn de f sofre nova fragmentação, determinando que as Qn que chegam a Y sejam de magnitude ainda menor.

Foi, portanto, descrito um sistema que tem, para uma quantidade em f um estado de "complicação" em Y , e para uma qualidade em f uma tópica em Y . Tópica entendida como as relações anatômicas e dinâmicas de cada órgão dos sentidos com alguns neurônios Y , através de f . Além disso, a complexidade de Y também se daria pelo fato de receber, além da Qn de f (neurônios do manto), uma certa Qn endógena (neurônios do núcleo).

No desenvolvimento individual do sistema nervoso as vias de descarga para a ação específica precisam da ajuda de um agente externo (um adulto que interpreta as necessidades da criança e favorece as descargas adequadas). Dessa forma esta via passa a ter a função secundária de comunicação. O desamparo inicial do ser humano é a origem das motivações morais, uma posição de naturalismo ético adotado por Freud.

O processo para a ação específica e a descarga de Q resultante representam uma vivência de satisfação. Isto provoca em Y : 1) eliminação duradoura de Qn, e portanto cessa em w o desprazer; 2) nos neurônios do manto há ocupação que corresponde à percepção de um objeto, e 3) chega a outros locais do manto a informação de eliminação. Entre essas ocupações e os neurônios nucleares forma-se uma facilitação que passará sempre a ser ativada frente à incitação ou ao desejo, de forma que a Qn chegará à representação do objeto que viabilizará a vivência de satisfação, estabelecendo uma meta para a ação específica do sistema.

Resumindo, a vivência de desejo exerce atração sobre o objeto - a atração primária -, enquanto a vivência de dor provoca repulsa pela imagem recordativa ocupada - a defesa primária ou repressão .

A suposição de coisas como a atração do desejo e a repressão levam à conclusão de que existe uma certa organização neuronal em Y que modifica o fluxo de Qn que tenham sido capazes, na primeira vez, de despertar satisfação ou dor. A esta organização se chamou o "eu". Seu núcleo parece coincidir com a representação da pulsão, e sua função seria a de desviar toda Qn que pudesse levar a uma identificação errônea de um objeto como real. Isto quer dizer que se destina a inibir os chamados processos primários, aqueles que se desenvolvem a partir de um fluxo de Qn que caminha até a ocupação alucinatória de uma representação de objeto de desejo, ou ao total desenvolvimento de desprazer (angústia).

O papel de inibição do "eu" dará origem a um processo de ocupação parcial do objeto de desejo que permite reconhecê-lo como não-real. A partir daí temos o desenvolvimento de processos de reconhecimento do complexo perceptivo e de seus atributos de tal forma a dirigir a Qn necessária à execução da ação específica até o objeto real através de caminhos alternativos. Essa seria a marca dos processos secundários, em especial do pensamento. O processo de pensar se daria pela ocupação de neurônios Y inibidos na sua capacidade de gerar facilitações pela ocupação lateral de neurônios feita a partir do "eu".

Antes de analisar a gênese dos sintomas, a psicopatologia, precisamos discutir o que acontece no sonho, processo primário paradigmático. O sono tende a se manter enquanto nenhum estímulo externo ou necessidade interna perturbar a economia do sistema. Sendo assim, tem como condição um rebaixamento de carga endógena no núcleo de Y , o que afasta a necessidade de por em andamento processos secundários. Ocorre como conseqüência dessa descarga do eu a retirada da atenção colocada em f , e daí um certo isolamento dos estímulos perceptivos. Temos então que no estado de sono o sistema Y se encontra algo isolado, a menos que uma magnitude considerável de Qn venha mobilizar os processos secundários. Dessa forma estão abertos os caminhos para o desenvolvimento de um processo primário peculiar que é o sonho.

O sonho consistiria na ocupação alucinatória de representações de objetos de desejo, conseguida pelo fluxo retrógrado de Qn de Y , que não buscaria o pólo de execução motora, mas o pólo perceptivo. Os sonhos ocorreriam com desenvolvimento de consciência, por ocupação simultânea de w (estimulado pelo período), o que define uma falta de identidade completa entre processo primário e inconsciente e entre consciência e eu.

 

Psicopatologia

Nesta 2a parte do Projeto, Freud analisa processos patológicos desenvolvidos por determinadas características do sistema antes descrito.

A histeria é tomada como modelo de processamento patológico. Nesse quadro encontramos que todo indivíduo histérico está sujeito a uma compulsão determinada por representações superintensas. Estas têm, no entanto, características diferentes das representações superintensas que determinam as peculiaridades do "eu". São incompreensíveis, não solucionáveis pelo processo de pensamento, e incongruentes quando examinadas em sua estrutura. Diferentemente de uma neurose simples – uma fobia desenvolvida após uma experiência desastrosa –, a compulsão histérica cessa se ela for esclarecida quanto aos seus determinantes ocultos à consciência. Daí segue que para ter as características de ser solucionável pelo esclarecimento e de ser incongruente, precisa ter passado por um processo de substituição ou de deslocamento de ocupação de cargas (energia) entre duas representações, de tal forma que uma representação aparentemente não relacionada passa a ser o símbolo de uma outra, esta sim diretamente relacionada a um evento que provocou uma vivência de desprazer. Isto se daria pela possibilidade inerente ao sistema nervoso de dissociar um evento A-B em A e B sendo que A recebe toda a Qn, tornando-se uma representação superintensa, e B fica reprimido (pelo menos da consciência).

Mas se esse é um processo que pode ocorrer num contexto de funcionamento normal, o que torna a compulsão histérica particular, e de onde ela se origina? Partindo da experiência clínica temos duas respostas: a repressão se dá sobre representações que despertam desprazer; e, essas representações vêm da vida sexual. Freud usa um caso clínico para explicar esse processo.

Emma não consegue ir sozinha a uma loja. Explica isso a partir de uma recordação de que aos 12 anos foi sozinha a uma loja onde viu dois balconistas rindo entre si. Fugiu tomada de um afeto de terror. Este fato despertou pensamentos de que riam de seu vestido e de que um deles lhe agradara sexualmente. Para entender que um evento tão inocente pudesse despertar um processo patológico precisou-se chegar a uma recordação mais antiga. Quando tinha 8 anos fora a uma mercearia sozinha, onde o merceeiro beliscou-lhe os genitais por sobre o vestido, dando uma gargalhada. Apesar de ter sofrido a agressão voltou uma segunda vez à loja.

O riso dos balconistas evoca uma recordação tornada inconsciente (do merceeiro). Nas duas ocasiões se encontrava sozinha na loja. Junto com essas recordações vem a lembrança do beliscão nos genitais, agora acompanhada por uma descarga sexual possibilitada pela puberdade. A liberação sexual se converte em angústia, ela teme um ataque dos balconistas e foge. No entanto, por ocasião da ida à loja aos 12 anos e do riso dos balconistas, o processo de "recordação" da cena pré-puberal se dá sem concomitância da consciência, e o que nela brota são apenas o fragmento "vestido" e a falsa ligação que faz de que riem do seu vestido e de que um deles lhe agrada sexualmente. Daí a falsa premissa, ou Proton Pseudos, histérica de que deveria ir acompanhada às lojas para evitar que rissem dela. Essa falsa premissa é a substituição da lembrança do atentado sexual.

O que vemos nesse exemplo dado por Freud é a descrição de como se formam símbolos histéricos. De primordial importância é o advento da puberdade que dá, a posteriori, o significado sexual que uma primeira experiência não podia ter. Portanto o "trauma" se constitui por uma relação de significado entre dois eventos distantes no tempo, em que o segundo re-significa o primeiro, que permanece reprimido, dando-lhe o teor sexual. Nesse sentido podemos imaginar que para um evento ser "traumático" ele não precisa, objetivamente, ser agressivo ou potencialmente lesivo, basta que, na cadeia associativa, entre em relação de significado com outro elemento que lhe confira a qualidade de desprazer, reforçando a repressão e pondo em marcha os mecanismos defensivos.

Ainda como conseqüência patológica do afeto temos a perturbação do ato de pensar. O afeto intenso ocupa determinadas vias antigas de facilitação impedindo o uso de outras mais recentes. Além disso, o afeto impõe o uso de vias que permitam a descarga para evitar o desprazer, e o pensar só é possível pelo deslocamento de pequenas Qn.

Tentativa de apresentar os processos psíquicos normais

Os processos secundários devem ser explicados pelo efeito que o conjunto de neurônios com ocupação constante – EU – exerce sobre os neurônios com ocupação variável – o restante do sistema neuronal.

O processo secundário por excelência é o pensar. Para Freud pode-se entender o processo de pensar como o fluxo de Qn vinda de f através dos neurônios Y devidamente informados pela qualidade atribuída por w e modificado pela ocupação extra da atenção de determinados grupos neuronais. Em outras palavras, o processo de pensamento tem como objetivo comparar uma percepção com as diversas representações de objeto presentes no sistema neuronal para encontrar uma identidade entre as duas. Freud não consegue explicar a existência da atenção, tendo que considerá-la uma necessidade biológica que direciona o fluxo do pensar para representações que receberam este "a mais de energia", tendo como finalidade evitar o desprazer que o não reconhecimento da realidade traria. Esse grupo de neurônios, responsáveis pela atenção, determinará o término do processo numa identidade entre percepção e representação – o reconhecimento – ou em um reconhecimento da representação de desejo e da ação específica necessária para alcançá-lo, no caso do pensar crítico.

Com base nesse processo, temos que as dificuldades de pensar e as inibições de curso de pensamento podem ser explicadas pela transferência de Qn a neurônios ligados a representações reprimidas ou a neurônios com ocupações laterais relacionadas, que desencadeariam desprazer se recebessem alguma Qn a mais. As diferenças nas facilitações dariam conta de explicar processos quase automáticos de pensamento em que as ligações intermediárias escapam à consciência do sujeito.

 

 

O rumo posterior da investigação freudiana

(A Segunda Tópica)

O Projeto, juntamente com "Estudos Sobre a Histeria"(26) e o Capítulo VII da "Interpretação dos Sonhos"(6), lança as primeiras idéias de uma Tópica, ou localização cerebral, para os diversos eventos psíquicos. Cabe, no entanto, entender melhor o que significa Tópica em Freud. O Projeto apresenta uma descrição essencialmente neurológica da disposição dos diferentes grupos neuronais de acordo com suas funções. No entanto, como ficará mais claro na exposição do aparelho psíquico que faz no Capítulo VII da "Interpretação dos Sonhos"(3), a Tópica do sistema psíquico apresentado diz respeito a uma certa localização espacial dos grupos neuronais, mas diz respeito principalmente a modos diversos de funcionamento desses grupos neuronais. Assim, a divisão Inconsciente e Pré-consciente/Consciente nos remete a regras diversas de funcionamento e a processamento de distintas funções mentais. A idéia de uma separação espacial é reforçada pela colocação de "barreiras", a censura, entre cada uma das instâncias. Os conteúdos mentais seriam processados de forma diferente em cada "lugar" psíquico, ou seja, cada instância teria uma forma diferente de fluxo de energia, e isto seria mantido graças à dificuldade que um conteúdo de uma instância teria para passar a outra, desde que significasse aumento de energia e, portanto, desprazer. Essa censura seria responsável pela manutenção de determinados conteúdos mentais no Inconsciente e, portanto, submetidos a um princípio de funcionamento distinto do consciente.

À medida que Freud avança em seus escritos metapsicológicos, e principalmente na concepção de personalidade, vai descobrindo a necessidade de criar uma nova Tópica que dê conta de explicar as relações intra-psíquicas dos conteúdos mentais e de seu papel na gênese de sintomas. Essa nova Tópica – Id (pólo pulsional da personalidade), Ego (representante dos interesses da totalidade da pessoa) e Super-ego (constituído a partir de modelos parentais de exigências e interdições, que julga e critica as ações do sujeito) – distancia-se da idéia de uma localização anatômica cerebral para reforçar a imagem de "lugares" psíquicos que processariam os conteúdos de formas diversas, sendo responsáveis pela repressão, pelas identificações e pelas defesas(27).

Freud tentou, no entanto, aproximar as duas Tópicas, sugerindo uma relação entre a divisão Inconsciente – Pré-consciente/consciente e Id, Ego e Super-ego. Chamará de inconsciente todo processo mental não acessível de imediato à consciência. Surge a necessidade de distinguir entre os conteúdos de fácil acesso à consciência, que chamará de pré-conscientes, e aqueles que só poderão ter acesso à expressão consciente através de um trabalho de suplantação de barreiras, seja pelo trabalho psicanalítico, seja de forma mais espontânea pela resolução de conflitos ou pela diminuição das barreiras da censura, porém de forma modificada, nos sonhos. Ao segundo processo chamaremos de Inconsciente, com conotações tópicas e de uma dinâmica especial. No começo do desenvolvimento do aparelho psíquico tudo é Id, tudo é, portanto, inconsciente. A partir do Id se desenvolve o Ego, parte do material mnêmico experencial do indivíduo, organizado de forma harmônica. Podemos distinguir no Ego porções conscientes e inconscientes (do ponto de vista fenomênico, sendo em grande parte pré-consciente). No desenvolvimento da Segunda Tópica houve a necessidade de se conceituar um terceiro lugar psíquico, depositário das identificações infantis e dos ideais do Ego. Em termos de funcionamento, este também teria uma porção pré-consciente e outra inconsciente. Do ponto de vista do Inconsciente como reprimido primário, o Id seria seu grande depositário, constituído por um núcleo incapaz de ser trazido à consciência por ter suas raízes nos primórdios do desenvolvimento do sujeito, fortemente apoiado nas funções orgânicas básicas(28).

 

 

 

CAPÍTULO 3

 

Discussão – a proposta de uma dinâmica ontogenética contextual

 

 

Quando Freud escreveu seu Projeto (setembro e outubro de 1895), vinha já de uma interessante teoria neurobiológica da linguagem desenvolvida em 1891 no trabalho "Sobre as Afasias", em que já rompe com a tradição anatômica em voga, e que aprendera com Meynert, seu professor na escola de Medicina.(29) Este texto foi escrito poucos meses depois da conclusão e publicação de Estudos Sobre Histeria (1895), e três anos após a Comunicação Preliminar, obras conjuntas com Breuer em que desenvolve um outro modelo de aparelho psíquico, com menos referência ao substrato neuronal. A proximidade desses dois textos demonstra os dois aspectos básicos de sua preocupação quando lançava os alicerces da Psicanálise. Por um lado a clínica lhe fornecia extenso material simbólico, apontando a importância da biografia individual na formação dos sintomas neuróticos, por outro, influenciado pelo conhecimento neurológico da época, buscava um modelo biológico determinístico que explicasse os mecanismos patológicos observados na clínica, tendo como base o cérebro humano e suas partes constitutivas – os neurônios(30).

O que vemos na descrição que Freud faz do que chama de aparelho psíquico (na verdade o cérebro com suas conexões entre neurônios de características diferentes) é uma preocupação em traduzir os conceitos ainda embrionários do edifício psicanalítico, que viria a construir, em linguagem biológica compatível com o conhecimento científico da época. No Capítulo II desse trabalho vimos como Freud desenvolveu seu modelo, como foi deduzindo a necessidade de grupos diferentes de neurônios, com características próprias e apropriadas para determinados processamentos. Como a energia, ou catexia, que alimentava constantemente o sistema devia ser transferida de um neurônio a outro e trabalhada no interior do aparelho psíquico de acordo com as cadeias associativas relacionadas e com a transmissão do que chamou de período (uma oscilação), capaz de gerar qualidade psíquica a partir de quantidade. Vimos também que aparentemente abandonou a tentativa de reduzir o mental ao físico por uma deficiência explicativa do modelo. Porém, o que parece ter sido decisivo foi a impossibilidade de lidar, na parte inacabada do Projeto – A Psicopatologia da Repressão – com os conceitos de repressão e defesa patológicos(31).

Na discussão que se segue sobre a atualidade do Projeto – e conseqüentemente da Psicanálise – alguns pontos importantes devem ser ressaltados:

  1. Critica-se muito Freud e a Psicanálise, alegando-se que a teoria não tem caráter científico, uma vez que se ocupa do indivíduo – e não se pode fazer ciência do individual. Trata-se, no entanto, de discutir um reducionismo histórico-evolutivo, mais adequado para as "ciências da vida"(31).Ressaltam-se características circulares e ad-hoc de muitas de suas construções e, principalmente, a impossibilidade de se refutarem várias de suas premissas centrais. Tentaremos mostrar, usando as teorias de Termodinâmica de Estados Abertos fora do Equilíbrio e de Criticalidade Auto-organizada (representando uma dinâmica ontogenética contextual), que essas questões podem ser respondidas de forma adequada.
  2. A Psiquiatria Biológica moderna tenta ser bastante determinista, buscando nos neurotransmissores, receptores celulares e segundos mensageiros, a explicação dos quadros psicopatológicos e o embasamento para sua terapêutica. Freud também buscou um modelo determinista em que os agentes constitutivos, no entanto, eram outros (barreiras de contato e facilitações no Projeto, conflito entre Ego, Id e Super-ego na Segunda Tópica). O que realmente interessa é a diferença do tipo de determinismo implícito em cada abordagem. A Psicanálise, aqui representada pelo Projeto, talvez nos forneça um modelo determinista-probabilístico no sentido de um sistema complexo, sensível a contexto, em que o desenvolvimento se dá rumo a regiões de maior probabilidade, em que fenômenos como criticalidade com auto-organização podem ocorrer. Nesses sistemas o espaço para o individual, a novidade e a auto-organização é muito maior, assim como a riqueza dos estados mentais possíveis.
  3. Podemos, então, considerar o modelo apresentado no Projeto como um Sistema Complexo Adaptativo. Isto quer dizer que se trata de um sistema biológico cuja complexidade é definida pelo grande número e variedade de elementos constitutivos, em constante interação, que geram comportamentos conjuntos não explicáveis pela decomposição das partes, e que caminham para novos estados de organização, sem volta a estados anteriores (irreversibilidade dos fenômenos biológicos).
  4. O problema da irreversibilidade dos fenômenos complexos biológicos sugere que uma abordagem pela Termodinâmica de Sistemas Abertos fora do Equilíbrio seria a mais interessante, compatibilizando a idéia de aumento de entropia com maior organização. Em termos práticos, a irreversibilidade aponta para uma terapêutica que terá como objetivo não o retorno a um estado anterior de funcionamento pré-patologia, mas a uma evolução para novas soluções no espaço de estados do sistema.
  5. O esquema neuronal do Projeto e sua alimentação, via órgãos dos sentidos, pode ser visto como uma cadeia associativa, sujeita a reforço, estabelecendo novos pesos entre as conexões neuronais, num sentido hebbiano. Parece-nos, no entanto, que a abordagem no sentido de uma cadeia associativa tipo "It’s a small world" é mais adequada, pois mantém a flexibilidade necessária para incluir as diferenças individuais, apontando para regiões de maior densidade probabilística, e não para pontos únicos de convergência de um algoritmo de solução para as entradas da cadeia associativa(32).
  6. Aprofundando a separação de níveis em que se pode trabalhar com o problema da relação cérebro-mente, podemos definir 3 dinâmicas de desenvolvimento.
  7. Uma dinâmica filogenética (lenta) que ocorre na escala temporal da evolução da espécie, uma dinâmica ontogenética, representada pelo desenvolvimento individual dos sistemas orgânicos, e que pode ser vista como um recorte atual do estágio de desenvolvimento filogenético, sendo assim apenas relativamente plástica, bastante imutável nas possibilidades de curso, e pouco sensível a contexto. Podem, por isso, as duas, serem abordadas pela Teoria de Sistemas Dinâmicos não-lineares com a ressalva que estes são normalmente reversíveis, o que não ocorre com sistemas biológicos. A terceira dinâmica seria uma dinâmica ontogenética contextual, desenvolvida numa escala temporal semelhante à ontogenética, porém sem os limites impostos pela filogênese. Poderia apresentar fenômenos de cascata de mudanças com criticalidade e auto-organização, em função da interação entre os agentes da rede associativa que a constituiria. Esta rede estaria em constante evolução desde os primeiros contatos do indivíduo com o meio externo e com o outro, e seria extremamente sensível a contexto, dissipando energia na forma de trabalho associativo.

    Tomando como base os conceitos expostos anteriormente de estrutura dissipativa, entropia termodinâmica e informacional, auto-organização, etc., vamos desenvolver uma análise do Projeto como sendo um modelo do que chamamos de dinâmica ontogenética contextual.

    Na formação do indivíduo a dinâmica filogenética estaria ligada ao processo evolutivo da espécie, que obedece às leis da evolução e que se desenvolve em longos períodos de tempo. Esta é uma dinâmica de características rígidas, cujas variações no tempo só podem ser vistas retrospectivamente no enfoque da antropologia e da paleontologia. Temos também uma dinâmica ontogenética, representada pelo desenvolvimento dos sistemas internos do indivíduo – sistema nervoso central, sistemas musculares, etc. – que obedece a uma especificidade. Quer dizer, mesmo podendo ser observada em uma escala temporal menor que a anterior, está sujeita àquela e é, portanto, apenas relativamente plástica. Como são tratáveis como classes de comportamentos que amadurecem, podem ser consideradas como comportamentos invariantes. Essas duas dinâmicas podem ser bem abordadas por Teoria de Sistemas Dinâmicos Não-lineares e pela procura de atratores que estabeleçam pontos fixos e ciclos-limite como solução periódica para variáveis e parâmetros que definam certas funções. Nessas duas dinâmicas podemos identificar mecanismos de forma clara, provavelmente com alguma tradução razoável em linguagem física, que nos possibilita descrever de maneira coletiva certos padrões patológicos e sua abordagem através de fármacos, condicionamento ou educação.

    Existiria, porém, uma terceira dinâmica, a ontogenética contextual, ou seja, não-vinculada de forma restrita à filogênese ou à ontogênese da espécie, mas à história individual, à cultura, às experiências afetivamente significativas. Esta dinâmica representa o aspecto de rede associativa do cérebro, que é capaz de fixar a um dado evento um determinado contingente de afeto – reforço ou aversão, prazer ou desprazer – que pode, numa acepção hebbiana, constituir um aprendizado, um trauma ou apenas uma biografia singular.

  8. Se existe, portanto, uma ponte entre cérebro e mente, boa parte dela está nessa terceira dinâmica, e deve ser tratada através da termodinâmica de sistemas abertos, já sugerido por Sutton e Ratey(33), teoria da informação e criticalidade auto-organizada. O Projeto de Freud pode ser visto como uma tentativa de construir uma sintaxe neural a partir de uma rede associativa capaz de representar memória em sua estrutura, de tal forma que essa memória influencia a evolução futura da rede. O processo se daria com distribuição de energia interpretável pela Termodinâmica de não-equilíbrio de Prigogine.
  9. A rede associativa é alimentada por eventos da história individual interpretados por sistemas afetivos cerebrais sob a influência dupla de estados puramente biológicos - variações hormonais, disfunção dos sistemas neurais moduladores de afeto - e de experiências anteriores a eles relacionadas.
  10. O caráter semântico (de conteúdo) dessa rede coloca problemas para a utilização da Teoria da Informação de Shannon com suas medidas de entropia informacional, uma vez que esta é independente de conteúdo e relacionada a probabilidade. O contraponto com a medida de entropia da Termodinâmica conceitualizada por Boltzmann e as derivações de Prigogine podem dar um caminho melhor para relacionar entropia e organização.
  11. Falaremos, nessa rede associativa, em densidades de probabilidade, estruturas susceptíveis de reações em cascata e de migração para novos pontos de quase-equilíbrio. A migração para estados mais robustos talvez represente as formações psicopatológicas descritas pela Psicanálise, como a Histeria, as Fobias, a Neurose Obsessivo-compulsiva e a Paranóia. Sua sensibilidade à história individual explica o desenvolvimento em algumas pessoas e não em outras.
  12. Freud imaginou um sistema complexo sensível a contexto mas que tendia a evoluir para certas leis gerais de funcionamento – condensação, deslocamento, regressão. Nesse ponto reside o grande desafio de encontrar uma teoria que se aplique a um sistema que seja ao mesmo tempo regido por algumas leis gerais de funcionamento (os mecanismos psíquicos propostos por Freud) e que seja plástica o suficiente para que os sistemas de um indivíduo nunca seja igual ao de outro.
  13. O trabalho hermenêutico, em especial aquele realizado a partir do método psicanalítico - que pressupõe uma atitude especial tanto do paciente quanto do analista, e uma dinâmica específica que definem o "setting" do processo analítico - seria a forma de reconstruir as associações que deram a determinadas configurações da rede associativa, e a alguns agentes em especial, o caráter de pontos de criticalidade com avalanches.

Talvez o ponto mais importante de se discutir quando se fala do trabalho analítico seja a possibilidade de inserir um processo tão único no contexto mais amplo das regularidades que regem o sistema adaptativo complexo – o cérebro e a mente que dele surge – de forma a responder às críticas de que seria um método não passível de abordagem científica. Como vimos, o aspecto semântico da rede associativa, que é neuronal na sua base, surge da formação de bacias de atratores, ou de regiões de alta densidade de probabilidade de representação de determinadas experiências acumuladas ao longo da história do indivíduo. À medida que tal rede vai se formando, uma estrutura neuronal existente à época do nascimento, dotada de um determinado perfil de conectividade específico, vai se modificando através do ajuste progressivo dos pesos das conexões entre os neurônios, numa acepção hebbiana e, também, vai formando novas conexões, possibilidades de associação que podem ir ganhando, cada vez mais, características individuais. No desenvolvimento da mente, em especial da identidade, o papel do meio, representado pelo outro – ser basicamente falante, doador de semântica – é primordial. As sucessivas experiências vão preenchendo de significado uma rede associativa antes apenas sintática.

Pensemos no aparelho psíquico proposto por Freud no Projeto como uma rede neural que inicia sua história de "treinamento" tendo como informações a priori características dadas pela herança genética e por certas vicissitudes da formação embriológica. A partir do nascimento essa rede começará a ser submetida a um tipo especial de treinamento ou aprendizado. A experiência de sensações desprazerosas como a dor, o cansaço, a sede e a fome desencadeiam uma série de ações expressas no meio, como o choro, que, além de representarem a tentativa do sistema de eliminar a energia acumulada pelo aporte sensorial, constitui uma comunicação. De alguma forma essa necessidade é satisfeita e a memória dessa satisfação fica gravada no sistema. Imaginando o esquema proposto por Freud, e as noções de processamento distribuído para memória e aprendizado como expostas por McClelland em relação ao Projeto(34), podemos dizer que diversos ramos dessa rede neural, ou as diversas redes conectadas no interior desse sistema, modificarão os pesos de conexão entre seus elementos, de tal forma a representar os vários aspectos da memória em questão. Na linguagem do Projeto, seriam vias de facilitação, caminhos que serão mais facilmente percorridos frente a uma nova necessidade identificada como semelhante à anterior. Cada nova experiência reestabelece um sem número de pesos entre elementos, porém, sempre influenciados pelos estados anteriores do sistema. Essa sucessão de "treinamentos" não programados vão formatando o sistema e, conseqüentemente, o indivíduo. No processo dessa forja é que podemos observar o surgimento das patologias, interpretáveis como mudanças de estado no sistema provocadas por fenômenos de avalanche. Explicando, sistemas complexos abertos recebem constantemente energia de fora, ficando fora do ponto de equilíbrio. Os sistemas que, além dessas características, são irreversíveis, apresentam criticalidade com auto-organização. Quer dizer, existem estados do sistema que podem ser mais ou menos radicalmente mudados por perturbações mínimas, mas que, uma vez nesse estado, sempre migram para uma nova configuração mais estável. Podemos imaginar que um sistema psíquico vinha se desenvolvendo de forma aparentemente dentro da normalidade, mas que vinha gravando algumas de suas memórias, distribuídas no sistema, de tal forma que um elemento novo desviaria totalmente a trajetória de estabilização dos pesos de conexões. No caso de Emma descrito no Projeto, essas memórias seriam os fatos relativos às duas visitas que fizera na infância à mercearia, especialmente o ataque sexual sofrido, e o elemento novo capaz de desencadear o comportamento patológico seria a capacidade de significar sexualmente determinadas sensações, descoberta após a puberdade. Em termos da cadeia associativa semântica, podemos supor que elementos antes meramente representados de forma sintática na cadeia neuronal – mercearia, vestido, beliscão, risos – passaram a ter mais uma característica, um prazer/desprazer qualificado semanticamente.

Seja qual for a forma escolhida para abordar o desenvolvimento dessa rede descrita no Projeto, fica evidente que se trata de um processo irreversível que degrada energia (entendida como o aporte sensorial externo ou proprioceptivo, interno) acumulada durante o processamento de cada novo evento. Isso nos possibilita olhar termodinamicamente para esse sistema e analisar a medida da entropia. A segunda lei da termodinâmica indica uma direção temporal na qual o sistema evolui, ou seja, de uma situação de maior energia para uma de menor. No caso dos sistemas biológicos, e como vimos do modelo do Projeto também, estamos lidando com sistemas abertos, em que há fluxo de energia e matéria. Dessa forma, adotando as formalizações de Prigogine, podemos considerar que as mudanças de entropia medem duas situações distintas, a troca de entropia do sistema com seu meio – no caso do Projeto os aportes sensoriais e as ações motoras no mundo – e a entropia produzida nos processos irreversíveis internos ao sistema – a memória, a identidade de realidade, o pensamento, a produção de um sintoma. Em linhas gerais isso significa que o sistema evolui para estados de maior complexidade, em que existe um número cada vez maior de estados possíveis. Dessa forma temos aumento de entropia com aumento de organização.

Já vimos que essa organização se dá, ao longo do desenvolvimento do sistema complexo que é o modelo de rede do Projeto, de forma semelhante às pilhas de areia do modelo de criticalidade auto-organizada(35,36,37). Cada novo elemento que entra no sistema se acomoda em regiões dessa rede neural ou semântica de mínimo de energia – uma bacia de atração – provavelmente formada pelo ajuste dos pesos das conexões entre seus elementos e pelas inibições que determinados elementos podem provocar em outros. A partir de uma determinada configuração aquele sistema, ou sub-região do sistema se encontra em situação tal que um novo elemento pode desencadear uma cascata de mudanças e uma estabilização em um comportamento global totalmente diferente. Prigogine tinha como condição necessária à manutenção de um sistema auto-organizante o não-equilíbrio. Aos sistemas abertos fora do equilíbrio chamou de estruturas dissipativas. São sistemas que obedecem ao princípio de produção mínima de entropia.

O grande atrativo de se analisar um modelo como o do Projeto segundo essa óptica é o fato de que podemos ter uma explicação para o trabalho realizado no interior do sistema. As estruturas dissipativas trocam energia externa de menor qualidade por energia interna de maior qualidade. Essa energia de maior qualidade implica uma entropia menor que a esperada pela energia externa. Isso explicaria como, apesar da fragmentação da Q que entra no sistema no modelo do Projeto, para que o estímulo possa passar para o sistema Y em forma de Qn menores, essas pequenas quantidades de energia são capazes de realizar todo e qualquer trabalho psíquico. Mesmo que não possamos definir a essência dessa "energia" a que Freud se refere, podemos considerar que, no interior do que chama de aparelho psíquico – o sistema complexo adaptativo representado pela cadeia semântica – ela é de uma qualidade tal que frações muito pequenas podem, não só realizar todo trabalho psíquico, como também gerar sintomas se encontrarem o sistema em determinados pontos críticos.

Freud descreve no Projeto uma rede neuronal constituída por vários tipos de neurônios e por um grande número de elementos. Na evolução desse sistema complexo adaptativo vemos como, a partir da modificação das conexões entre os diferentes neurônios, a memória gerada pelas sucessivas experiências vai formatando, a partir do substrato neural, um outro nível de processamento, rico em significado. O impasse que levaria Freud a abandonar sua tentativa mais ligada à Neurociência e formular sua teoria em termos teóricos ricos em conteúdo semântico já se apresenta no seio do próprio Projeto, quando aponta, na discussão da gênese das patologias, para a necessidade de uma re-significação de uma experiência passada. A crescente complexidade do sistema aponta para um número cada vez maior de estados possíveis. Isso significa maior ordem no sistema e, também, para uma maior entropia termodinâmica global, mesmo que o processamento no interior da rede neural ou da cadeia associativa busque entropias mínimas locais.

 

 

 

 

 

 

 

limites para uma teoria do sujeito: o caso da psicofarmacologia

Como pudemos ver, o impasse com que Freud se deparou está longe de ser superado. Podemos ter modelos científicos que nos dêem a dinâmica de funcionamento cerebral de processos relativamente complexos como a visão, mas que falham ao tentar formalizar o processamento de produtos propriamente mentais em que uma semântica mental não pode ainda ser dispensada.

A Psicofarmacologia, na medida em que descreve a ação de fármacos que, uma vez no SNC, induzem alterações na produção mental, nos fornece um outro tipo de ponte entre o nível mental (ou lingüístico-semântico) e o cerebral.

Isto é, sabemos que os psicofármacos agem em diversos pontos do metabolismo de um neurotransmissor, na síntese de receptores da membrana sináptica, em suma, em mecanismos bioquímicos em nível celular. É também evidente para qualquer profissional da área que tais fármacos são capazes de produzir notáveis mudanças, não só no comportamento observável de pacientes tratados, como também são capazes de modificar o conteúdo ideatório, o humor e os afetos. Exemplificando, as drogas antidepressivas são capazes de modificar o conteúdo de ruína, pobreza, etc. comuns em determinadas depressões, corrigindo-os de tal forma que o indivíduo volta a avaliar de forma realista e crítica sua situação de vida e suas responsabilidades quanto a certos eventos. Quer dizer, fica claro que mesmo o conteúdo dos processos mentais é, de alguma forma, determinado pelo bom funcionamento cerebral em nível físico. Isto deveria ser suficiente para impor limites à atuação hermenêutica em algumas situações, pois demonstra que parte da produção lingüístico-semântica prescinde do significado fornecido pela história individual, sendo sensível a estados gerais de funcionamento da porção do SNC responsável pelo colorido afetivo das vivências psíquicas.

A correlação proporcionada pela Psicofarmacologia não penetra na semântica individual do processamento mental do indivíduo, mas apenas no nível de síndromes mentais, em que certos eventos patológicos expressáveis pela linguagem proposicional (e principalmente por alterações nos padrões desta) têm uma correspondência com o rompimento de um determinado padrão de funcionamento da complexidade cerebral, muito mais que uma correspondência com um distúrbio localizável topologicamente no SNC.

Considerando o modelo do Projeto um exemplo de ponte entre o processamento cerebral e o produto mental, interpretável como o que chamamos de dinâmica ontogenética contextual, apresentaremos uma separação em quatro tipos para o consciente/não-consciente que exemplifica a forma de abordagem e caracterização dos fenômenos patológicos semanticamente pobres (abordáveis pela farmacologia) e dos semanticamente ricos (abordáveis pela psicoterapia). Com isso, esperamos resgatar a importância do Projeto e compatibilizar, em termos de teorias contemporâneas, duas visões aparentemente distintas sobre a mente e seus desvios – o enfoque dinâmico e o orgânico.

 

Teoria hermenêutica do sujeito: uma conciliação entre complexidade física e significado

Grande parte dos impasses enfrentados por Freud, quer no Projeto, quer na Segunda Tópica, parecem ensaio dos impasses que adentraram o século XX e que podem, de maneira geral, ser traduzidos pelo binômio complexidade física e complexidade semântica.

De maneira sucinta, o problema crucial da transformação de fenômenos cerebrais em variedades mentais é a dualidade complexidade de sinal e complexidade de significado. A tradição psicanalítica, bem como parte da tradição filosófica ligada à filosofia da mente, afirma que o problema do significado é o que tornou inconciliáveis as tentativas de redução das ciências mentais às ciências físicas.

Freud, como outros tantos, e acorde com inúmeras tentativas da época, tentou inicialmente um esquema de natureza quantitativo-formal. Aparentemente insatisfeito com suas limitações, abandonado-o em seguida rumo a uma teoria funcionalista semantizada das relações mentais. O Freud do Projeto está mais próximo de uma modelagem pré-semântica (de tipo redes neurais) e o Freud da Segunda Tópica está ligado a uma tradição de equivalência funcional (de tipo Inteligência Artificial Simbólica)(38). Se bem que, como vimos anteriormente, a idéia de uma evolução da rede neuronal para uma rede associativa semântica é inevitável, mesmo no Projeto, se quisermos dar conta dos mecanismos de formação de sintomas apresentado por ele no caso Emma.

Antes de propormos um modelo conciliatório, vamos rever rapidamente os problemas da Ciência Cognitiva e seus dois grandes modelos de inteligência artificial, exemplificando o quanto os impasses do Projeto e as alternativas de modelização estão presentes em Freud e podem ser reeditadas numa versão atual de ciência da vida mental.

Se queremos estudar a vida mental, nos seus aspectos de função e de disfunção – patologias psiquiátricas – devemos percorrer um espaço dúplice em que se apresentam, de um lado a complexidade cerebral, e de outro, a complexidade da interpelação de significados expressáveis proposicionalmente. Das ciências humanas e da linguagem ordinária, nos chega o significado que pode ser expresso na quantificação das expressões do Cálculo de Predicados: "Seja um x, tal que, x é Homem e x é mortal". Ser, na acepção de Quine(39), é ser capaz de substituir uma variável quantificada no Cálculo de Predicados. Sócrates é, por exemplo, o ser que substitui o x da sentença quantificada existencialmente ou universalmente "Existe um x, tal que, se x é Homem, x é mortal".

O Cálculo de Predicados opera com formas semânticas interpretáveis na linguagem ordinária: "Homem", "mortal" e "Sócrates", em que pese sua referência com o mundo físico (Sócrates e Homem) e com estados e processos do mundo natural ("ser mortal"). São expressáveis sob a forma de sentenças ou de átomos de significação. Nomes que designam entes, estados e processos são, todos eles, explicáveis por formas sentenciais-proposicionais. A mente se faz, praticamente, de formas expressáveis lingüisticamente. Exceção a certos estados como a dor, os estados mentais são formas lingüisticamente expressáveis ou intencionalmente expressáveis.

Por intencionalidade nos referimos a uma qualificação de estados e conteúdos que se arranjam de uma maneira tal que se dizemos "Pedro crê que p", esta sentença é não-reduzível à linguagem física. Se FHC é o atual presidente da república, Pedro, ao operar o modo crença, pode crer que FHC não é o atual presidente da república, sendo, assim mesmo, a sentença verdadeira. Ou seja, os estados intencionais, significado e consciência dos estados mentais de Pedro são não radicalmente traduzíveis em termos de sentenças que descrevam o mundo físico.

Significado, consciência, sujeito e mente são todos qualificadores de sentenças proposicionais que parecem possuir algo que ultrapassa lógica e epistemologicamente o mundo da natureza. O mundo dos fatos naturais que rege a anatomia e a função neural complexa que subjaz ao processamento mental parece inconciliável com as formas do mental.

Freud procurou, vindo da neurologia, da experimentação e da clínica de século XIX – já devidamente formatada em termos da ciência moderna – dar um arcabouço teórico-empirista a uma teoria geral do sistema nervoso. Procurou fundar operações através das quais se pudesse fazer emergir qualidades comportamentais a partir de quantidades neurais e de uma classificação de tipos neurais. O Projeto contemplava uma porção de localização ou modularização, mesmo que não se referisse a estruturas anatômicas, no que diz respeito aos tipos de neurônios e uma porção de processamento dinâmico de entidades, ligado à conversão quantidades-catexias/qualidades-fatos mentais. A impossibilidade de ultrapassar o aspecto genérico de sua formulação parece estar ligada ao fato de ter abandonado o Projeto e optado por desenvolver sua teoria em bases lingüísticas até chegar à Segunda Tópica, que tem um esquema eminentemente funcional-semântico, sem grande potencial de confrontação-contrastação com os mecanismos neurais subjacentes.

O problema da Primeira Tópica e sua verossimilhança em termos de contrastação neural deve ser entendido como fazendo parte do Projeto, na nossa concepção.

De fato, o Projeto e o esquema consciente, pré-consciente e inconsciente pode ser muito melhor manipulado numa teoria engatada no modo de processamento neural, mas não resiste a uma tentativa mais elaborada de fundar classes semânticas associativas e seus mecanismos agregados, a não ser que façamos a leitura da evolução da rede neuronal para uma cadeia associativa semântica de caráter complexo e adaptativo.

Freud, em que pese a inspiração pré-rede neural do Projeto, desemboca numa generalidade que se mostrou infrutífera e não pôde desenvolver uma teoria hermenêutica com o tipo genérico de ponte entre substrato neural, energia, catexia e outros produtos semanticamente ricos. Para que se possa trabalhar com entidades semânticas e suas partições/associações num todo discursivo da narrativa da constituição do sujeito e do sintoma é preciso desconhecer o modo de processamento neural íntimo e partir para uma axiomatização de primitivos lingüístico-culturais, que é o que propõe na Segunda Tópica, e que permanece no restante de sua obra.

Para que possamos fazer não apenas uma exegese estéril de idéias antigas, mas, ao contrário, mostrar a atualidade e os impasses do Projeto, cem anos depois, vamos passar rapidamente pelos dois conceitos-modelo rivais da ciência cognitiva que tentam modelar cérebro e mente.

A Ciência Cognitiva, enquanto projeto de estudo e modelagem interdisciplinar da mente e de sua relação com o cérebro e o comportamento, erigiu classes de modelos, para que, na essência do virtual/artificial, retraduzisse, não a operação concreta, mas o código/razão que faz a intermediação dos processos de conversão de quantidades neurais em fenômenos mentais/comportamentais. Da Ciência Cognitiva fazem parte as grandes disciplinas que se ocupam de cérebros e mente, além de uma ênfase na construção de modelos concretos e abstratos de máquinas pensantes. A natureza dessas máquinas é que sofre a primeira dicotomia que encontramos no Projeto, e sua relação com a Segunda Tópica.

A Inteligência Artificial Simbólica, como já vimos rapidamente em capítulo anterior, se caracteriza por um corpo conceitual relacionado às seguintes proposições fortes:

  1. o pensamento é uma forma de computação sobre variedades de representações;
  2. as representações mentais são formas proposicionais e, portanto, descritíveis sob a forma de sentenças quantificadas do cálculo de predicados;
  3. o raciocínio, o pensamento e a inteligência são os resultados das operações de cadeias de inferência necessárias sobre variedades de sentenças conectadas no Cálculo de Predicados;
  4. a forma de quantificação de variedades de verdade ligadas ao problema da verificação de cada sentença é digital-booleana, embora se possa, posteriormente, agregar a estas formas funções valorativas intermediárias – fuzzy –, bem como se possa mitigar os padrões clássicos de consistência e não-contradição – através das lógicas paraconsistentes;
  5. a arquitetura chave para a modelização desses esquemas passa a ser a máquina de Turing, discreta e digital, e sua expressão concreta passa a ser a arquitetura computacional de tipo von Neumann, em que se distinguem níveis de computação, algoritmo e implementação, bem como se distinguem, na prática, divisão clara entre memórias com endereços fixos, processadores centrais e nível de instruções superveniente;
  6. o problema da verdade das proposições e o encadeamento da validade dos argumentos é a base da associação entre um logicismo da coerência das sentenças e conjuntos de sentenças e a gênese de cadeias inferenciais que são análogas às leis do pensamento;
  7. os átomos sobre os quais se aplicam as regras de conexão sentencial, de quantificação e construção de cadeias inferenciais, são proposicionais em sua natureza – objetos lingüisticamente descritíveis e, portanto, sujeitos ao problema da definição do significado – lembre-se de "Homem", "Sócrates", "mortal" e outros tantos.

O que se passa, então, no seio do projeto de IAS é que o pensamento e a mente como um todo são definidos como um corpo de operações lógicas inferenciais, respeitando uma determinada gama de leis lógicas aplicadas sobre variedades representacionais-lingüísticas e que está desacoplada do substrato neural, salvo pela pressuposição de que o sistema nervoso central é capaz de operar como se fosse uma máquina de Turing ou uma arquitetura von Neumann. Mais ainda, a essência da razão se faz pela procura das regras, traduzíveis em conexões lógicas que medeiam a relação entre as entidades. Isso está bem expresso, embora não se esgote, na simplicidade da expressão "se...então..." que caracteriza grande parte dos comandos através dos quais se programa uma arquitetura clássico-simbólica. Se conhecemos as variedades representacionais- lingüísticas e os objetos semanticamente qualificados que descrevem os mundos interior e exterior, podemos imputar-lhes regras de conexões e numa segunda rodada, fundar uma meta-regra que fundamente a razão, a inteligência, o pensamento e o processamento mental.

A idéia de que existem primitivos lingüisticamente mediados, de que podemos descrever regras de conexão e a divisão digital, modular de arquiteturas Turing/von Neumann peca por algumas incapacidades de contrastação com o sistema nervoso central. Esse não é o problema se aceitarmos uma dissociação funcionalista, segundo a qual o nível de resolução de um problema e sua divisão em etapas claras e discretas (algoritmos) de processamento é um nível de abstração que não precisa ter contrastação física com as leis e mecanismos neurais. Esse não seria o pecado da IAS, teoria computacional da mente, uma vez que também nos computadores tradicionais há uma dissociação entre as razões da máquina e as razões do programa. Não são apenas níveis diversos, mas também níveis que se permitem ter razões próprias, leis que não se reduzem/traduzem umas às outras. Ora, se isso se passa no nível da programação de computadores e da construção de arquiteturas computacionais, por que não se passaria, também, no binômio cérebro/implementador e mente/programa?

O impasse das arquiteturas simbólicas não reside exatamente na dissociação dos níveis, bem descrito no trabalho de Marr(40) sobre computação/algoritmo/implementação, mas na caracterização do encadeamento do pensamento, ou seja, das leis mentais, como cadeias de regras conhecidas ou passíveis de ser conhecidas e, portanto, descritas sob a forma proposicional. Os processos podem ser discretos, assim como também podem ser dissociados os níveis de descrição, linguagem e modelos. O cérebro pode, na complexidade do sinal, conter leis que não necessariamente se projetam(41), em leis do pensamento. O impasse não está necessariamente na separação dos níveis, mas na natureza mais ampla dos processos mediadores da conversão do sinal em símbolo, que fazem um caminho não apenas proposicional, mas também à custa de regularidades dinâmicas que são captáveis por estimação paramétrica de funções aproximantes.

A complexidade de significados da linguagem guarda um imenso cabedal de possibilidades para o sistema mental na forja do indivíduo e da história pessoal, arena primeira da teoria psicanalítica. Mas, além ou aquém dessa complexidade, reside uma complexidade não-traduzível por regras, que impede que se transforme toda a tarefa mental em proposição e toda solução em algoritmo e regra de transformação inferencial necessária.

Os modelos de Inteligência Artificial Simbólica se fazem suceder, embora não se extinguem, pelos modelos de inteligência artificial conexionista (IAC) ou redes neurais.

Redes neurais são, grosso modo, uma forma de mimetizar as funções neurais na manipulação de espaços multidimensionais de vetores em que se procura aproximar uma função, a partir da identificação de um sistema, e de um treinamento capaz de, pelo subseqüente ajuste paramétrico, otimizar a solução e alcançar a estabilidade.

Pode-se dizer que o que caracteriza a rede neural, mais que uma aproximação de um estilo neural de processamento, é uma confissão da impossibilidade de transformar todas as tarefas mentais em funções descritíveis por proposições, bem como de entender-lhes todas as conexões através de regras mediadoras, que seriam elas também regras capazes de descrição lingüística.

As redes neurais se utilizam de vetores e trabalham numa dimensão que não é permeável à linguagem. A estabilização de uma rede que "computa", por exemplo, um espaço multidimensional de estímulos luminosos, gerando na saída um reconhecimento de padrão, não é passível de ser descrita por regras lingüísticas de tipo "se...então...", nem de ser modelada através de cadeias de inferência. De uma certa forma, o que tornou impossível à IAS vingar como único modelo de relação cérebro/mente foi sua natureza logicista/semântica mediada por regras, enquanto as redes neurais cumprem, em parte, o papel de associar vetores de entrada e de saída através de aproximações não-traduzíveis por regras. Porém, a semântica que interpreta os vetores de entrada e de saída, salvo para casos de processamento de periferia sensorial, é a semântica dos termos lingüisticamente mediados. Quer dizer, ainda que se pretenda quantificar a função neural e dar a ela a incumbência de aproximar funções, a semântica da linguagem ainda está presente na interpretação dos vetores de entrada e saída. No caso da IAS, tanto a entrada e a saída quanto a intermediação, são semanticamente transparentes. Carecem, no entanto, de contrastação com o sistema nervoso.

Com o Projeto, Freud se defronta, pelo caminho inverso, com os mesmo dilemas que enfrentamos nesses dois tipos de modelos. Se a semântica do Projeto designa tipos de neurônios e tipos de operações, as aproximações são impenetráveis lingüisticamente, o que faria com que o processo hermenêutico não pudesse descortinar-lhes o significado por uma razão de princípio processante – o mesmo que afirma que, se fizéssemos uma análise hermenêutica de um espaço multidimensional de aproximação paramétrica de funções de uma rede neural, encontraríamos um encadeamento lingüística e associativamente expressável em linguagem ordinária, o que é uma hipótese de trabalho ousada e para desenvolvimento posterior.

Com a Segunda Tópica, Freud adere a um projeto de transparência semântica de entidades e de processos de ligação, mas com o peso de não poder associar, senão genericamente, essas mesmas entidades, lingüisticamente mediadas, ao processamento neural, quer na forma normal, quer na forma patológica, que é a mais complicada.

Nosso problema, portanto, e de uma certa forma o problema que Freud enfrentou e que a Ciência Cognitiva ainda enfrenta, é de relacionar a opacidade semântica das operações neurais complexas de aproximação e uma teoria hermenêutica associativa do sujeito, o que tentaremos fazer através do recurso ao binômio "implícito x explícito" para memórias e "voluntário x automático" para outros processamentos. Dessa forma, talvez se possa entender que a união entre a complexidade neural dos sinais e a complexidade mental está ligada de forma implícita à gênese de padrões estáveis de significado, e que a porção explícita e consciente do processamento trabalha com novidades, vontade e com declarações.

Quatro aspectos da mente

Uma teoria da vida mental, tanto de seus aspectos fisiológicos quanto dos patológicos, diz respeito eminentemente ao problema da consciência.

O edifício psicanalítico, de uma certa maneira, foi erguido para dar conta da dissociação entre ato e intenção, ou melhor, entre intenção expressa e intenção velada. O pragmatismo implícito é notório. O que determina um ato não é apenas a vontade expressa e consciente, mas as condições de verossimilhança, que tornam a causa possível. A mente não é verdade, é verossimilhança, na acepção de uma economia consciente/ inconsciente em que as razões determinantes apenas não são expressas na cena consciente.

Pode-se dividir a consciência em percepção (auto-consciência) e controle, enquanto o não-consciente pode admitir uma outra divisão que veremos a seguir.

A consciência é a sede de dois processos aparentemente distintos: a consciência da consciência e o controle. Age-se, de uma certa forma, porque se tem consciência do ato, ou de sua planificação e desdobramentos, e controle sobre a ação. Porém, isso é apenas parte da história, porque certamente há uma variada gama de atos em que a ação se faz sem controle, embora haja consciência do ato (caso da compulsão) e, por outro lado, entre os automatismos não-conscientes distinguem-se os hábitos e também, na versão psicanalítica, intenções não-expressas ou não-expressáveis na consciência.

 

 

 

 

 

 

 

consciência

controle

consciência

consciente

não consciência

automática

não consciência

voluntária

atos conscientes plenos

SIM

SIM

NÃO

NÃO

compulsões

NÃO

SIM

xxxxxxxxx

xxxxxxxxx

hábitos, condicionamentos

NÃO (somente se desejar inibir)

NÃO

(somente se desejar monitorar)

SIM

xxxxxxxxxx

 

 

motivações ocultas

NÃO

NÃO (embora se tenha acesso a um discurso alterado das motivações)

NÃO

SIM (acessáveis pela reconstrução hermenêutica ou pela cadeia implícita das significações)

O quadro acima procura mostrar que há situações conscientes plenas em que controle e consciência operam. A situação de compulsão - anomalia- constitui consciência sem controle. Os automatismos - hábitos e condicionamentos- são formas passíveis de se tornar conscientes, porém, que podem coordenar atos sem a interferência direta do campo consciente. A quarta divisão diz respeito a uma classe de determinantes comportamentais que são não-conscientes na intenção e no controle, embora tenham motivações não-conscientes e não sejam simplesmente hábitos ou automatismos. Para completar, têm um análogo cifrado de discurso de justificação consciente, ou seja, uma versão consciente adulterada pelo trabalho da repressão, cuja motivação inconsciente pode vir a ser descortinada através do trabalho hermenêutico da interpretação.

A mente, na acepção do quadro anterior, pode ser entendida como o resultado da composição de 4 mecanismos diversos: a consciência com operação de controle; a consciência com operação "consciente"; o não-consciente com operações automatizadas - hábitos e condicionamentos -; e o não-consciente "voluntário", com motivações ocultas e interdições de toda e qualquer ordem (este último identificável como o inconsciente da Psicanálise).

Grande parte da celeuma que diz respeito a modelos de mente advém da não compreensão deste aspecto quadrifuncional das operações mentais, que pode ser exemplificado por 4 fenômenos típicos que são: o ato normal, a compulsão, o automatismo e o "significado oculto". Pode-se perfeitamente creditar ao desenvolvimento de teorias psicológicas e psicopatológicas ao longo do século XX um grande número de equívocos no que tange à compreensão do quadro acima. De um lado, a tradição de inspiração psicodinamicista (psicanálise como protótipo) procurou reduzir a compulsão a uma forma anômala de processo inconsciente, enquanto que a tradição organicista - psiquiatria biológica da década de 60 para cá- em diminuir a importância da motivação e do significado ocultos na gênese das patologias. A compreensão de que existe uma dinâmica ontogenética contextual encarregada de processar os conteúdos significativos individuais ajudaria a resolver essa aparente contraposição.

Claro que a divisão acima é arbitrária e simplificada, mas de uma certa forma espelha algo de fundamental que pode conciliar, num primeiro momento, a idéia de que Psicanálise e Psiquiatria são complementares e que cérebro e mente são dois conceitos-chave se desejarmos delinear os limites de uma psicopatologia genuína, quando a intervenção farmacológica é fundamental e quando a intervenção sobre hábitos ou sobre significados reprimidos é preferencial. Quando agir terapeuticamente sob a forma de drogas e quando agir sob a forma de psicoterapia é uma aparente oposição ainda sem clara delimitação e operacionalização. A revisitação do Projeto, tanto no que elucida acerca dos impasses vividos pela modelagem psicológica posterior, quanto no que tange à sua importância como inspiração para a discussão dos limites de uma psicopatologia científica genuína, é uma tarefa epistemicamente importante.

De maneira simplificada, pode-se dizer que o fenômeno consciente pleno é normal, enquanto que a compulsão é de natureza patológica, merecendo tratamento farmacológico e/ou recondicionamento; o automatismo é normal e o significado oculto é da ordem da patologia dinâmica, que tem sua gênese na história da formação da cadeia associativa peculiar e individual daquele sujeito – sistema complexo adaptativo – em questão, que merece alguma forma de reconstrução significacional por aprendizado e interpretação. Aqui encontramos a expressão do que chamamos anteriormente de dinâmica ontogenética contextual.

No quadro que apresentamos acima a patologia psiquiátrica que merece intervenção farmacológica é da ordem das coisas que acometem o controle e não acometem a consciência; enquanto que as coisas que acometem a boa relação significacional e que, portanto, merecem intervenções hermenêuticas, são da ordem das coisas que alteram a gênese implícita do significado existente por trás das ações, não sendo traduzido na consciência senão sob a forma de uma versão incompleta ou deturpada; também não é automatismo, hábito, traço, caráter ou outra forma não-voluntária e não-consciente capaz de melhor explicar o quadro.

A análise que se segue, complementar à desenvolvida no início deste capítulo, se desenvolve, portanto, ancorada em duas suposições fortes:

  1. Os processos de gênese significacional são implícitos e os de gênese declarativa são explícitos; uma teoria de relação forte cérebro/mente deve aproximar funções cerebrais complexas através de redes de significado, e funções mentais complexas através de cadeias inferenciais de matiz lógico – a dinâmica ontogenética contextual.
  2. A separação entre consciente e não-consciente deve obedecer a uma segunda divisão. Na consciência há fenômenos normais ligados à consciência e ao controle. Quando há consciência e não há controle (a crítica sendo considerada ainda uma forma de controle) há patologia de tipo compulsão, corrigível sob a forma de intervenção não-semântica (treinamento e condicionamento comportamentais e fármacos). Na não-consciência há fenômenos normais que são hábitos e condicionamentos. Os anormais são as manifestações comportamentais ou relacionais desviadas que têm como causa os significados profundos. As psiconeuroses descritas por Freud – fobias, histeria, obsessões e paranóia – depuradas das alterações de neurotransmissores que foram posteriormente encontradas em algumas delas, têm sempre, na sua gênese individual, uma alteração semântica na cadeia associativa, provocada pelo caráter auto-organizante do sistema, com a concorrência de afetos intensos de prazer/desprazer que formataram a rede nos seus primórdios. A intervenção sobre eles se faz sob a forma de intervenção semântica, em que a hermenêutica e a perquirição de significados e associações aproxima a dinâmica de um sistema neural complexo, semelhante ao do Projeto e das arquiteturas IAC, às da dinâmica cerebral clássica.

 

 

 

 

 

 

 

 

Complexidade física e significacional: tentativa de compatibilização da sintaxe cerebral e da semântica mental através de um modelo de memória

Ao longo deste texto pudemos observar que o trabalho de Freud - o Projeto e seus desenvolvimentos posteriores- é uma amostra de impasses ainda não resolvidos em termos de modelos cérebro/mente.

Freud tentou, até o fim, estabelecer uma teoria biológica da vida mental e apenas três aspectos podem diminuir a importância atual de sua obra.

Primeiramente, a incapacidade de traduzir a complexa sintaxe cerebral do Projeto em uma semântica mental, fez com que Freud adotasse uma teoria de feição mentalista (2a Tópica). Não se pode criticá-lo nesse sentido porque 100 anos depois continuamos a não saber como fazer a tradução entre semântica mental (seja de funções, seja de entidades) em uma sintaxe cerebral.

Em segundo lugar, Freud não consegue vislumbrar o desenvolvimento da Psiquiatria após a revolução dos psicofármacos, o que de uma certa forma dividiu a arena da psicopatologia em duas: dinamicistas radicais e organicistas radicais. Como observa Kandel(42), a influência da Psicanálise na Psiquiatria é brutal até a década de 70 sendo os outros aspectos, estudo e pesquisa inclusos, em alguns centros propositalmente excluídos. São, então, apenas 20 ou 30 anos que introduzem uma revolução farmacológica na Psiquiatria e que podem fazer o velho Freud parecer obsoleto, quando sua obra ainda tem o germe necessário para que se particione uma psicopatologia dinâmico-organicista, mental-cerebralista, de forma a distinguir a patologia orgânica, semanticamente pobre, e a patologia dinâmica, semanticamente rica.

O terceiro e último ponto que pode depor contra o edifício freudiano é a radicalização e esterilização de parte de seus seguidores que parecem se bater contra a hipótese organicista, como se esta fosse uma heresia, e como se remédios fossem apenas muletas para uma solução mais profunda. Se Freud não consegue reduzir o mental ao físico, nem por isso autoriza seus discípulos a reduzir o físico ao mental, tal fosse a hermenêutica da linguagem a única porta para acessar uma estrutura cerebral desinteressante e holista que apenas hospeda biografias e cadeias significacionais. Freud hoje talvez se irritasse com a excessiva crença de alguns de seus seguidores nas maravilhas da linguagem. Tentando, porém, trilhar caminho semelhante ao do Projeto, através de redes neurais, osciladores acoplados, termodinâmica de estados abertos e criticalidade auto-organizada, acabaria por produzir modelos genéricos e talvez voltasse, mais uma vez, a uma prosa da cultura como hipótese acerca da gênese do sujeito e de uma investigação empírica armada para uma psicopatologia de tipos psiquiátricos. Freud, portanto, não fez senão antever as tensões com que nos defrontamos.

A formulação que se segue parte da hipótese de que uma conjunção entre dois operadores conscientes (fenômeno e controle) e dois não-conscientes (hábitos/automatismos e desejos/vontades ocultos) pode nos auxiliar na compreensão da inter-relação entre cérebro e mente, psiquiatria e psicanálise.

Binômios e dicotomias

Existem diversos binômios classificatórios além do célebre cérebro/mente. A conjunção consciente/inconsciente é um dos operadores da psicanálise e tem sido o principal ponto de celeuma entre diferentes correntes. Alguns autores questionam a possibilidade de se colocar no inconsciente alguma forma de propósito ou de vontade. Melhor ainda, de intencionalidade. O conceito de intencionalidade demonstra que os sistemas conscientes são capazes de se orientar em direção a um objeto com modos mentais diversos. A interpretação de Chisholm(43), criticada por alguns, vai na direção de caracterizar a intencionalidade como tendo forte repercussão na linguagem. Não nos afeta essa interpretação da intencionalidade e, na realidade, o problema do inconsciente e de sua relação com a intencionalidade está essencialmente ligado ao fato de que a gênese do significado se dá em outro sistema que não o sistema declarativo da consciência (se dá no reordenamento dos pesos das conexões entre os diversos elementos constitutivos da cadeia associativa semântica).

Vamos situar o problema: a primeira dicotomia que parece distanciar a psicanálise das possíveis teorias materialistas da mente é a de inconsciente/consciente, sendo que o inconsciente aqui referido é depositário não só de ações não-conscientes (pré-conscientes na linguagem da Psicanálise), nos moldes de hábitos e automatismos da nossa classificação de páginas atrás, mas essencialmente de uma estrutura semanticamente rica, que determina, em grande parte, o panorama de algumas de nossas ações, embora não tenhamos nem consciência nem controle sobre ela; além do mais, essa estrutura pode ser depositária da formação de sintomas que caracterizariam parte das patologias mentais.

Essa dicotomia não peca pela inserção de atos não-conscientes, mas, de acordo com alguns, pela não-contrastabilidade empírica das entidades psicanalíticas. Cremos que isso não tem maiores conseqüências, porque o que garante cientificidade a uma teoria é a derivação de enunciados protocolares empiricamente testáveis e refutáveis, e não o nome de uma estrutura teórica - o inconsciente- que não precisa ter qualquer representação real. Porém, o que realmente torna complexa a teorização psicanalítica é a colocação de uma estrutura significacional, determinante e causal em relação aos atos (não esqueçamos que nos referimos a um determinismo e a uma causalidade probabilísticos, como vimos na discussão do início do capítulo), em território não-consciente e não-controlável na totalidade, controlável e acessível apenas pelo trabalho hermenêutico de reconstrução da cadeia dos possíveis determinantes da ação.

O que pretendemos mostrar é que há uma outra dicotomia, a de explícito x implícito, para sistemas de memória, que pode trazer luz a alguns dos processos que foram descritos por outra via pela teoria psicanalítica. Ao fim esperamos mostra que a hermenêutica é uma maneira legítima de aproximar a complexidade de geração de atratores de significado no plano do sinal. A consciência, em que pese sua característica lingüística rica e o fato de ser potencialmente a sede do significado, é apenas o locus de realização de parte das declarações verdadeiras e possíveis do sujeito, que é dotado de controle também apenas sobre uma determinada gama de enunciados.

Como vimos ao longo do trabalho, o problema da mente e de sua relação com o cérebro pode ser caracterizado pelo binômio sinal cerebral/significado mental. Porém, o problema quanto ao estilo de processamento é que há duas modalidades de atos mentais, os conscientes e os não-conscientes. Entre os não-conscientes podemos caracterizar aqueles que são apenas formas de hábito, e outros que, graças à psicanálise, podemos entender como formações significacionais.

O problema da consciência é intrincado e, de uma certa forma, pode ser substituído, no presente momento, pela memória. As dicotomias clássicas de implícita e explícita, curta e de longo termo, episódica e semântica, declarativa e procedimental podem dar lugar a uma classificação bastante atual sobre sistemas de memória (44):

 

memória

declarativa (explícita) não-declarativa (implícita)

fatos eventos habilidades priming cond.clássico aprendiz. hábitos simples não associativo

 

Nesse quadro percebe-se que a divisão entre sistemas de memória se dá, basicamente, em formas declarativas/explícitas e não-declarativas/ implícitas. Isto é, na caracterização dos sistemas de memória pode-se ter claro que há uma inserção sub-reptícia do problema da consciência: a explícita vincula memórias conscientes e a implícita vincula porções não-conscientes da memória armazenada no sistema. Se não podemos, de imediato, caraterizar o problema do implícito como o matiz inconsciente freudiano, teremos que trilhar algumas distinções básicas para poder fazer algo de interessante a esse respeito.

O mais intrigante dos dados acima diz respeito ao fenômeno do priming: o indivíduo pode manipular semanticamente termos e objetos sem ter consciência de o estar fazendo. Isso mostra que a manipulação não-consciente envolve processamento semântico e não apenas condicionamento.

Ora, os subsistemas que operam mecanismos declarativos e não-declarativos são diferentes, podendo haver lesões hipocampais que afetam a memória declarativa, explícita e não afetam a memória não-declarativa, implícita. Ou seja, os subsistemas envolvidos são diferentes, o que garante formas de dissociação funcional e anatômica para definir as duas grandes entidades. Dissociados funcional e anatomicamente, abrem-se as portas para alguma formulação em termos de um possível mecanismo de processamento, que teria sido captado pela teoria psicanalítica e, no entanto, não se desenvolveu a contento por uma gama de problemas nas formulações posteriores.

Algumas diferenças podem ser creditadas à distinção entre aprendizado simples e configuracional ou relacional:

"... after medial-temporal-lobe damage some memory systems are still intact (what we called ‘taxon’ systems) and that a particular kind of memory system (the ‘locale’ system) is disrupted...Yet another difference was built into the very names we chose for the system: the term ‘locale’ was chosen to highlight the fact that spatial information was always a part of what this system processed, while the term ‘taxon’ was chosen to denote the fact that processing within the nonhippocampal systems was based on the taxonomic principles of category inclusion and generalization...According to O’Keefe and Nadel (1978) several factors distinguished hippocampally based (locale) learning from non-hippocampally based (taxon) learning...First, locale learning was assumed to be all-or-none and to show rapid acquisition (and extinction), while taxon learning was assumed to be incremental and to show slower acquisition (and extintion)...Second...we argued that there is a fundamental connection between locale learning and exploration...what we called novelty-directed behavior...The ‘motivation’ to acquire information, in the first instance about one’s environment, was taken as the force underlying locale learning. The standard motivations – hunger, thirst, and so on -, were not considered to be important in this system, though information about the location of food, water, mates and safety might well be part of what is acquired. Taxon learning , on the other hand, was assumed to be motivated by the traditional forces emphasized by Hull, and therefore to depend on the standard application of reinforcements...One prediction that flowed from this distinction between locale and taxon learning was that animals with hippocampal lesions, because of their absolute dependence on taxon learning systems, would be much more tied to reinforcement contingencies than would intact animals, whose behavior is at least partially determined by curiosity. This prediction has been largely confirmed in a variety of studies...Third, we assumed that locale learning yields memory representations less prone to interference effects than are those representations formed in the process of taxon learning. We derived this asumption from our sense that memories represented in maplike formats would provide the basis for unique episodes and multiple access routes, while memory stored in the categorylike representations (the basis for representing information in taxon systems) would emphasize generalization and similarity among different traces, and hence would be more susceptible to confusions and interference effects....The hippocampal system emphasizes what is unique about a memory, and hence functions to separate memory traces on the basis of what distinguishes one from another; the taxon systems generally emphasize what is similar about memories, and hence function to combine memory traces on the basis of how their features overlap. It is hard not to conclude that there are distinct advantages to each of theses kinds of systems and that an intelligent organism needs both...Fourth, we assumed that the maplike representations in the locale system are the basis for generating novel outputs, such as detours in mazes. This ability to generate novel outputs arises from the flexibility of the representations, which allows it to be used in novel ways...Fifth and finally, we assumed that the locale system is the basis for providing the context within which the context-free information from the taxon systems could be situated...the general absence of context information characterizes the memory storage properties of taxon systems. Concepts and categories, the look, the feel and the sound of things, the goodness or badness of objects; all these are represented within the taxon systems. What is missing is the spatio-temporal context within which this knowledge was acquired; this is provided by the locale system, where representations from the taxon systems are located within a structure providing such a context. Behaviour which can be proceed without contextual information, and there is much that belongs to this class, will not require more than intact taxon systems."(Nadel, Lynn "Multiple Memory Systems: What and Why, an Update"in Memory Systems, Daniel Schacter and Endel Tulving (ed) , 1994, MIT Press, pp. 42-47)(44).

Desse texto citado podem-se retirar algumas conclusões bastante fortes:

  1. Pode-se afirmar que há dois modelos de memória, explícita e implícita, e que, de uma certa forma, podemos torná-las sinônimas de sistemas locais e taxonômicos.
  2. Podem-se distinguir dois subsistemas cerebrais diversos para processá-las: hipocampal (explícita/local) e não-hipocampal (implícita/taxonômica).
  3. O binômio fato/significado pode sofrer dois tipos diversos de manipulação: o fato sendo processado pelas categorias explícitas e o significado sendo processado pelas categorias taxonômicas. De fato, o processo de construção do significado é mais lento que o fato denotativo/ostensivo. Uma criança aprende com mais facilidade a nomear algo que já viu e mais lentamente aprende o significado dos termos. O significado é uma forma de aproximação lenta taxonômica.
  4. A consciência é tudo ou nada e melhor captada por modelos IAS de tipo proposição, conforme mostram os trabalhos. Os fenômenos não-conscientes e de periferia são mais bem captados por dinâmicas de aproximação lenta de tipo rede neural (o que está compatível com a distinção entre sistemas locais e taxonômicos).
  5. A caracterização da verdade e do contexto é uma propriedade do sistema local e explícito. A característica de superposição e interferência é uma propriedade do sistema taxonômico lento.
  6. Poder-se-ia dizer que num sistema dinâmico o sistema local é responsável pela dinâmica rápida, enquanto o sistema taxonômico é responsável pela dinâmica lenta (45).
  7. O que aconteceu na tradição é que Freud percebeu que o sistema que operava a patologia e o sintoma tinha características de confusão e interferência. Isso ficava claro porque o indivíduo mostrava não ter conhecimento nem controle sobre o significado oculto e dissociado do fato/evento que assim adquiriu potencial patógeno. Mais ainda, pelo fato de ser susceptível a retreinamento e reforço, sabemos ser compatível com a hipótese de sistemas hipocampais lesados. É também susceptível a melhora por mecanismos de tipo sugestão e hipnose (hoje sabemos que certas variedades de processos são passíveis de retreinamento).
  8. Freud aproximou o sistema inconsciente no modelo do Projeto, sob a forma de uma rede neural. Estava certo em intuir a clara lentidão de formação dos atratores de convergência dos processo profundos, e em intuir a possibilidade de "mismatch" de memórias e outros, como inibições, pelas propriedades dinâmicas do sistema (caos, bifurcações e criticalidade). Abandona o Projeto pelo simples fato que, ao lidar com a riqueza deste sistema não-consciente, não consegue a equivalência entre a riqueza de variáveis e parâmetros que o implementam e a possibilidade de sua tradução em variedades significacionais que vão ser responsáveis pela geração do backgroud de significado para expressões. Tão logo sente-se incapaz de manipular todo o processo inconsciente através de variáveis e parâmetros, muda o eixo da sua investigação para uma feição de tipo hermenêutico e aparentemente aproximável por modelos de tipo IAS.

O que temos, então, é que a distinção entre sistemas locais/explícitos e taxonômicos/implícitos pode nos auxiliar a resgatar alguma partição fundamental que Freud intuiu – a de consciente e inconsciente. Tentou modelar o processo inconsciente por redes neurais, ciente dos aspectos de tipo taxonômico do significado (o que está certo, se respeitarmos a noção de Bentham sobre significado). Ao não ter como substituir o modelo neuronal por variedades lingüísticas, ruma para uma hermenêutica que não é, necessariamente, um discurso da consciência, mas uma propriedade da linguagem de aproximar, pela cadeia de relações significacionais, a riqueza de formação de atratores dinâmicos no nível subjacente.

Nossa interpretação do Projeto e do desenvolvimento posterior da doutrina psicanalítica é a seguinte: Freud trabalhou com um binômio específico: consciente x inconsciente. Não se deu conta que a consciência deveria ser particionada em dois processos, controle e consciência-consciente, nem se deu conta que processos inconscientes deveriam ser particionados em formas automáticas (pré-conscientes) e formas intencionais (o Inconsciente propriamente). Ora, se intuiu inicialmente que as características mentais relevantes do inconsciente cerebralmente plausíveis eram de tipo rede neural (o que está certo no modelo taxon de memórias), se defrontou com a impossibilidade de traduzir variáveis e parâmetros mentais em variáveis e parâmetros cerebrais. Volta, então, a um discurso da linguagem, com aproximação de significados, o que fez com que parecesse um discurso da consciência e da cultura, embora o que estivesse fazendo fosse simplesmente aproximar funções dinâmicas através de significados e não de declarações.

O desenvolvimento posterior da Psicofarmacologia pareceu sepultar suas tentativas, novamente, como se estivéssemos lidando com as partições consciente e não-consciente e não com uma partição em quatro blocos.

Freud percebe que o discurso sobre o inconsciente deve ser cerebralmente embasado. Ora, isso é melhor aproximado por dinâmicas de interação. Quando abandonou a formulação dinamicista do Projeto, pareceu mudar o discurso, mas apenas o que fez foi intuir a quase-equivalência entre dinâmica do sinal e dinâmica do significado (que é lenta e processada por outro sistema que não o que processa sobre declarações). Isso fica claro pela partição entre sistemas taxonômico e local.

Com o advento da Psicofarmacologia e de outras classificações psiquiátricas, parecia que a Psicanálise fôra apenas um modelo culturalista inócuo. Nossa opinião é que, ao contrário, o que se fez foi, novamente, incorrer num modelo simplificado de sistema nervoso que não privilegia a distinção em quatro partições.

Pode-se dizer, então, que a consciência contempla uma modalidade de autoconsciência - seu aspecto fenomenal - e seu aspecto de controle. A falha no mecanismo de controle pode gerar patologias da consciência que são melhor tratadas por fármacos. O não-consciente pode ser dividido em duas modalidades: o automático e o intencional profundo. O intencional profundo manipula categorias semânticas e é captado pelo modelo taxonômico de memória. Suas patologias redundam em variedades dinâmicas anômalas que podem representar alterações topológicas em sistemas dinâmicos após bifurcações e, eventualmente, caos. São sistemas auto-organizados, portanto fora do equilíbrio e em constante troca com o meio externo, o que possibilita uma infinita gama de possibilidades de estabilização em novos comportamentos globais de mínimo de entropia local. Como não conhecemos as variáveis e os parâmetros do sistema, temos, através da reconstrução categorial-significacional da linguagem, uma aproximação do processo dinâmico do inconsciente.

A distinção local e taxonômica do trecho citado pode nos auxiliar a resgatar a atualidade da obra de Freud, com as devidas correções.

  1. A vida mental e sua inserção num sistema cerebral deve ser particionada em quatros variedades: consciente-consciente; consciente-controlável; inconsciente-automático; inconsciente-intencional.
  2. O consciente-consciente é o que nos faz perceber o mundo mental. O controle é fundamental para a correta caracterização da verdade das proposições. Quando falha suscita patologias veritativas de matiz consciente como as psicoses. Seu tratamento se faz através de psicofármacos e sua transparência semântica é grande, ou seja, não cabe buscar o significado oculto por trás do comportamento. O discurso é usado como fonte diagnóstica pois está carregado de erros de juízo e de lógica no seu aspecto formal. As declarações têm suficiência para o diagnóstico e, portanto, é uma patologia declarativa.
  3. O inconsciente é uma forma de pós-aprendizado que economiza processamentos de tipo especial. Pode ser simplesmente um automatismo, porém, pode ser a sede da formação do significado e susceptível a interferências. Como vimos nos "taxon systems", pode admitir interferência lenta através da vivência de episódios que tornam anômala a gênese de algum comportamento ligado a significado, gerando o que Freud chamou de sintoma. A patologia que pertence a esse grupo é significacional porque taxonômica, não-consciente porque implícita e, do ponto de vista de suas propriedades, é melhor captada por uma rede neural, como o fez Freud no Projeto. Para acessar a patologia em questão caímos no problema da substituição de variáveis e parâmetros. Na falta deles, o que fazemos é aproximar a dinâmica lenta do atrator implícito por uma reconstrução hermenêutica de significados não-declarados e, portanto, implícitos-inconscientes.
  4. A característica consciente do processamento mental é bem aproximável por um tratamento de complexidade e essencialmente de dinâmica de sincronização de grupos neuronais distribuídos, muito mais que por tentativas de localização anatômica(46).

Conclusão

Cabe ainda discutir um pouco o papel da psicoterapia – e a usarei num sentido mais amplo que o de psicanálise para ressaltar especificamente o processo hermenêutico e não o método psicanalítico – frente aos temas discutidos e às críticas feitas à psicoterapia enquanto tratamento eficaz para os distúrbios mentais. Já falamos do problema da cientificidade da Psicanálise, vamos agora falar das críticas quanto à subjetividade das avaliações de eficácia dos processos psicoterápicos. Dada a individualidade de cada situação de tratamento, os estudos de eficácia ficam restritos a períodos relativamente curtos de tempo quando comparados com a ação de psicofármacos, ou a avaliações retrospectivas de "melhora", influenciadas pelas pré-concepções do terapeuta. Uma revisão de diversos trabalhos de avaliação de métodos psicoterápicos(47) mostra não haver diferença significativa entre a terapia cognitivo-comportamental nos casos de Transtorno do Pânico, sua indicação mais festejada no momento, e sessões de "escuta reflexiva". Mais ainda, alguns pesquisadores sugerem que as únicas drogas comprovadamente superiores às psicoterapias são o carbonato de lítio para o Transtorno Bipolar, e fármacos como a clozapina para a Esquizofrenia(47). Essa revisão chama a atenção para o que se chama de efeito placebo – a melhora de um quadro mental provocada pela simples crença, por parte do doente, de que o tratamento terá eficácia. Nesse sentido tanto as psicoterapias quanto os psicofármacos compartilhariam desse efeito, aparentemente em medidas semelhantes.

Onde queremos chegar, porém, não é no argumento ecumênico de que ambos são válidos, nem de que o melhor é associar as duas práticas. Na verdade faz-se necessário examinar como, dentro da perspectiva descrita nesse trabalho, cada uma dessas terapêuticas estaria agindo na dinâmica do sistema complexo adaptativo formado pela mônada cérebro/mente. Vimos como uma rede neuronal, com características básicas determinadas pela genética da espécie, à medida que vai sendo "treinada" pelas constantes entradas, perceptivas/não-semânticas e lingüísticas/semânticas, vai se modificando em termos de pesos de conexões e gradativamente, através da gravação distribuída das memórias, vai se tornando, sem substituí-la, uma cadeia associativa semântica. As duas dinâmicas podem ser radicalmente modificadas por pequenas variações de parâmetros, desde que encontre o sistema, ou uma porção dele, em estado crítico. Foi essa variação de parâmetro que engendrou a patologia – tanto a "biológica" com sua alterações de neurotransmissores e receptores, quanto as "psicológicas" com suas alterações de significados profundos. A terapêutica caminhará no mesmo sentido. Um psicofármaco reestabelecerá uma boa comunicação entre os neurônios em questão, determinando novos pesos de conexão entre eles. Mas e a psicoterapia? Esta atuará de forma dinâmica bastante semelhante, porém por um caminho aparentemente mais tortuoso. A fala propiciará uma reavaliação dos significados, inicialmente de forma consciente (no sentido 1 do quadro de funcionamento mental), mas como qualquer entrada no sistema, esse processo desencadeará pequenas mudanças nos parâmetros, estabelecendo ou não equilíbrios locais, até que encontre o sistema num estado tal que um novo significado possível provoque uma mudança radical no comportamento global do sujeito (insight).

Na verdade não há como separar essas duas formas de funcionamento do sistema-mônada cérebro/mente. O que ocorre é que ora se nos apresenta um aspecto, acessável pela biologia e pelos fármacos, ora outro, acessível apenas pela hermenêutica dos significados individuais. A dificuldade não se dá pelo atual estado da ciência, mas pela essência do sistema e do processo estudados. Foi assim para Freud, é assim para nós. Não nos parece que o apelo ao materialismo eliminativo tenha gerado frutos suficientes para enterrar as aproximações psicológicas. Ao contrário, parece cada vez mais claro que existe uma impossibilidade de tradução de princípio. A crescente complexidade do cérebro possibilitou o surgimento de um modo peculiar de processamento cerebral no ser humano, o mental, que escapa à redução física tanto pelo enorme número de variáveis envolvidas quanto pelo surgimento de operações sobre esses elementos que só se dão nesse nível de processamento.

Com essas considerações nos parece que Freud persiste atual, corroborado por um volume especial da New York Academy of Sciences(48), e que o rumo da investigação futura é o de distinguir claramente o que são processos anômalos conscientes/controláveis, o que será dever de uma psiquiatria biológica fazer, e o que é da ordem das anomalias de formação pessoal de significados, o que continuará a ser seara da aproximação hermenêutica da experiência pessoal. A ilusão de que tenhamos algum dia tradução radical em variedades neurais de átomos de linguagem parece impedida por razões de princípio. A rationale do sistema nervoso e da emergência do mental é dinâmica. A linguagem, graças à dicotomia expressão/significado e à partição de sistemas que processam declarações e procedimentos pode ser uma via de aproximação da patologia intencional não-consciente, lenta e adquirida através da interferência em alguma cadeia relacional ligada à gênese do significado. A IAS é absolutamente descartada nessa concepção, e a dinâmica genuína só se faz substituir pela linguagem na interpretação de variáveis e parâmetros anômalos na gênese de significados. Também na gênese de patologias psiquiátricas essa linguagem serve ao diagnóstico e à classificação, sendo, novamente, o tratamento feito pela correção de parâmetros em sistemas dinâmicos que perderam sua topologia funcional. Nesses casos, no entanto, os sistemas são mais claramente físicos, e o ajuste feito nas conexões entre grupos de neurônios mais ou menos bem determinados.

Cremos ter mostrado que a avaliação de modelos teóricos de sistemas mentais como o Projeto deve atentar para três fatos básicos. Em primeiro lugar existe uma possível divisão do processamento cerebral em 4 tipos. Os produtos mentais deles derivados, patológicos ou normais, são conseqüência das peculiaridades de processamento em cada nível. A divisão 4, motivações ocultas, é aproximável pelo que chamamos de dinâmica ontogenética contextual – a forma de processamento da cadeia associativa semântica formada com base no desenvolvimento das conexões da rede neuronal. E finalmente, a hermenêutica é capaz de reconstruir, em nível consciente, o caminho percorrido na cadeia associativa na gênese de comportamentos com motivação oculta normais e patológicos. Também, como passa a fornecer novas entradas para o sistema, pode gerar transformações globais que não têm seus passos intermediários acessíveis à consciência, que representam a eficácia das "terapias da fala".

 

 

 

 

 

 

 

 

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